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sábado, 3 de maio de 2014

"RETRATO HEROICO": CENTENÁRIO DA REVOLTA DA CHIBATA (Histórico de Arte da Mario)



CENTO E UM ANOS DA REVOLTA DA CHIBATA: 1910-2011



Em 2010, realizei com meus alunos do Fundamental II, da E.M. Mario Piragibe (6ªCRE/SME-RJ) - como já mencionei em outra postagem na ocasião (22/11/2011) - Cem
Anos da Revolta da Chibata - um trabalho de artes visuais em homenagem aos Cem anos da Revolta dos Marinheiros por melhores condições de trabalho, de alimentação e pelo fim dos castigos físicos (chibatadas), aplicados pela Marinha da época (1910). Em 2008, já havia realizado um outro trabalho  sobre o tema na escola (ver: http://artemariopiragibe.blogspot.com.br/2010/05/joao-candido-e-revolta-da-chibata.html).

Conhecida como a "Revolta da Chibata", este acontecimento, que marcou a História do Brasil e da cidade do Rio de Janeiro, teve como líder o marinheiro João Cândido, que a partir de então recebeu popularmente a alcunha de "Almirante Negro".

O trabalho com os alunos resultou em dois vídeos, uma versão sem "efeitos" e outra com interferências tanto nos desenhos (retrato de João Cândido) como nos retratos dos alunos - pelo programa Windows Movie Maker, utilizando-se do recurso: "Limite".

Só em novembro deste ano, 2011, é que tivemos a oportunidade de expor para a comunidade escolar a proposta, graças a participação da escola na Semana da Consciência Negra. Montamos dois murais com algumas das imagens e, numa sala , preparada pelos alunos do Projeto Guardiões da Escola, exibimos (em sessão contínua) as duas versões do vídeo.



VÍDEO REALIZADO EM 2010 E EXIBIDO EM 2011

RETRATO HEROICO: HOMENAGEM AOS CEM ANOS
DA REVOLTA DA CHIBATA (1910-2010)

Herói para alguns, um "anti-herói" para outros...
a História não podia ficar indiferente a este notável homem:
João Cândido Felisberto!
Assistam ao vídeo!




SEMANA DA CONSCIÊNCIA NEGRA (nov./2011)

MOSTRA FEIRA INTEGRADA




Os monitores da exibição na Feira Integrada: alunos do Projeto Guardiões da Escola



A EXIBIÇÃO EM SESSÃO CONTÍNUA DO VÍDEO


Sessão contínua dos vídeos produzidos pelos alunos



Murais com os trabalhos



A PROPOSTA DE ARTE 2ºsem./2010: "RETRATO HEROICO":
HOMENAGEM AOS CEM ANOS DA REVOLTA DA CHIBATA: 1910-2010

Sem perder o foco de minha disciplina, que é as Artes Visuais/Artes Plásticas, trabalhamos este tema multidisciplinar, em que precisamos tomar conhecimento não apenas dos elementos básicos da linguagem visual (cor, forma, composição, espaço etc.; gêneros de pintura: retrato etc.), mas também nos adentrarmos em temas que dizem respeito a outras áreas do conhecimento: no caso, a História do Brasil.
Este ano, 2011, na linguagem das Artes Visuais, dei relevo às artes urbanas e ambientais. De início, pensei em trabalhar o "lambe-lambe", que é uma arte de rua com a técnica de colar cartazes nas paredes. Os alunos pesquisaram sobre várias modalidades de arte urbana e assistimos a vários vídeos interessantes sobre lambe-lambe, stickers, estencil etc.).
De acordo com a proposta do Conexão das Artes SME-RJ, fiz o workshop para professores da rede com o artista Antônio Bokel, sobre intervenção urbana, em que finalizamos com uma intervenção lambe-lambe numa parede em frente ao Calouste Kulbenkian (local onde aconteceu o curso). Eu conversei com meus alunos como havia sido esta experiência no workshop do Bokel. Eu pretendia que meus alunos não ficassem só na teoria ou só na visualidade "distante" dos vídeos, eu queria propor a eles uma intervenção com esta técnica.
Porém, por "questões técnicas", digamos assim, a proposta precisou ser adiada. A proposta era intervir num muro interno da escola com reproduções (fotocopiadas) do retrato de João Cândido, onde os alunos criariam outras interferências a partir da montagem. Com as cópias em mãos, mas (ainda) sem o restante do material, lancei a proposta deles intervirem (individualmente), com o material que eles tivessem em mãos (canetinhas, lápis de cor, tinta guache, giz de cera...), na imagem fotocopiada (na proposta anterior, seria uma interferência coletiva direta nas imagens fixadas no muro pela técnica do lambe-lambe).
A ideia de trabalharmos o gênero artístico retrato é que alunos de algumas de minhas turmas tiveram a oportunidade de visitar a exposição "Zerois: Ziraldo na tela grande" e "Anita Malfatti: 120 anos" no CCBB-RJ. Eu pretendia tê-los levado também para verem a exposição "Parede" no CCJF (mas não conseguimos o transporte). De posse do o material do setor educativo, eu repassei o conteúdo das exposições para os alunos/turmas que não puderam ir (disponibilizaram só dois ônibus e eram seis turmas de uma média de 40 alunos por turma). O rico material do setor educativo do CCBB sobre a exposição de Anita enfocava o "retrato". A exposição de Ziraldo mostrava os heróis das HQs e desenhos animados em situações cotidianas (num asilo de idosos, assistindo TV, num encontro amoroso etc.). Eram, em sua maior parte, "apropriações" de obras artísticas/históricas.
Levei para minhas turmas a questão: "que relação podemos ver entre os retratos da exposição de Malfatti e os heróis da exposição de Ziraldo com o retrato de João Cândido, líder da Revolta da Chibata (no qual vocês agora estão criando interferências artísticas)"? Não foi difícil a correlação: tal como Anita Malfatti, os alunos puderam (re)criar retratos de um herói de nossa história brasileira e carioca, um herói de carne e osso, que viveu situações cotidianas, tal como os super-heróis das grandes telas de Ziraldo (uma das revindicações da "Revolta" era bem "cotidiana", reivindicava-se melhores condições de trabalho e de alimentação, além, claro, do fim dos castigos físicos, pela qual a revolta dos marinheiros de 1910 ficou conhecida como a Revolta da Chibata).
Escolhemos apresentar os trabalhos através da linguagem do vídeo e do retrato fotográfico. A interferência no retrato fotocopiado de João Cândido foi trabalho de sala de aula para todos os alunos de minhas turmas (mas só escolhemos alguns para escanear - havia quase 300 trabalhos!); já a fotografia (o retrato dos alunos da escola) foi opcional, participava quem quisesse, inclusive alunos de uma das turmas em que eu não lecionava na época quiseram ser fotografados (vários alunos desta turma, 1604, antiga 5ª série, participaram este ano, 2011, voluntariamente em algumas de minhas propostas nas aulas de Artes, como, p.ex., "Os Guardiões da Escola Mario Piragibe: ativismo pela preservação do meio ambiente escolar").
Os alunos assistiram a vários vídeos sobre o episódio histórico da Revolta da Chibata, tanto voluntariamente, através de pesquisas individuais no Youtube, como obrigatoriamente, durante as aulas (para isso, contei com a estimável colaboração dos colegas professores de História: Talita Oliveira e Rafael Rossi). Os alunos fizeram ainda pesquisas (na Internet, na Sala de Leitura da escola etc.).
Montamos o vídeo com a música de João Bosco e Aldir Blanc, O Mestre Sala dos Mares (em que os alunos - em sala de aula, a partir de um vídeo que uma aluna conseguiu no YouTube -, confrontaram as duas versões da letra: a atual e a proibida pela censura militar da época), e finalizamos com os dizeres da placa comemorativa que acompanha o monumento do Marinheiro João Cândido na Praça XV, Rio de janeiro, inaugurada em 2008 (quando de sua anistia): agora, há bem mais do que somente "as pedras pisadas do cais"!

INTERFERÊNCIAS NO RETRATO DE JOÃO CÂNDIDO: MANIPULAÇÃO DA IMAGEM FOTOCOPIADA ATRAVÉS DE RECURSOS DISPONÍVEIS NUMA SALA DE AULA REGULAR (lápis de cor, canetinha hidrocor, giz de cera, tinta guache)







VISITA DOS ALUNOS À EXPOSIÇÃO ZERÓIS: ZIRALDO NA TELA GRANDE (CCBB/RJ)








VISITA DOS ALUNOS À EXPOSIÇÃO ANITA MALFATTI (CCBB/RJ)




Profa. Talita, de História, e nossos alunos, no CCBB-RJ


VÍDEOS ASSISTIDOS EM AULA

Diversos curtas do Youtube sobre o tema (1) e ainda outros, como, por exemplo, "Memórias da Chibata", ficção, de Marcos Marins, e "João Cândido e a Revolta da Chibata", documentário, de Produção da Turma Balacobaco (2004) da Escola de Audiovisual Nós do Cinema.







NOTA:
(1) Ver ainda os outros posts de nosso trabalho neste tema:



domingo, 1 de julho de 2012

Ainda no Clima da Rio+20. Um Texto para Refletir, de Leonardo Boff...


Insuficiências conceituais da Rio+20


O que espanta é que o documento final e o rascunho não mostram nenhum sentido de autocrítica. Não se perguntam por que chegamos à atual situação, nem percebem, claramente, o caráter sistêmico da crise. Aqui reside a fraqueza teórica e a insuficiência conceitual deste e, em geral, de outros documentos oficiais da ONU.


Leonardo Boff


Não corresponde à realidade dizer que a Rio+20 foi um sucesso. Pois não se chegou a nenhuma medida vinculante nem se criaram fundos para a erradicação da pobreza nem mecanismos para o controle do aquecimento global. Não se tomaram decisões para a efetivação do propósito da Conferência que era criar as condições para o “futuro que queremos”. É da lógica dos governos não admitirem fracassos. Mas nem por isso deixam de sê-lo. Dada a degradação geral de todos os serviços ecossistêmicos, não progredir significa regredir.


No fundo, afirma-se: se a crise se encontra no crescimento, então a solução se dá com mais crescimento ainda. Isso concretamente significa: mais uso dos bens e serviços da natureza o que acelera sua exaustão e mais pressão sobre os ecossistemas, já nos seus limites. Dados dos próprios organismos da ONU dão conta que de desde a Rio 92 houve uma perda de 12% da biodiversidade, 3 milhões de metros quadrados de florestas foram desmatados, 40% mais gases de efeito estufa foram emitidos e cerca da metade das reservas de pesca mundiais foram exauridas.


O que espanta é que o documento final e o rascunho não mostram nenhum sentido de autocrítica. Não se perguntam por que chegamos à atual situação, nem percebem, claramente, o caráter sistêmico da crise. Aqui reside a fraqueza teórica e a insuficiência conceitual deste e, em geral, de outros documentos oficiais da ONU. Elenquemos alguns pontos críticos.

Os que decidem continuam dentro do velho software cultural e social que coloca o ser humano numa posição adâmica: sobre a natureza como o seu dominador e explorador, razão fundamental da atual crise ecológica. Não entendem o ser humano como parte da natureza e responsável pelo destino comum. Não incorporaram a visão da nova cosmologia que vê a Terra como viva e o ser humano como a porção consciente e inteligente da própria Terra com a missão de cuidar dela e garantir-lhe sustentabilidade. Ela é vista tamsomente como um reservatório de recursos, sem inteligência e propósito.


Acolheram a “grande transformação”(Polanyi) ao anular a ética, marginalizar a política e instaurar como único eixo estruturador de toda a sociedade a economia; de uma economia de mercado passou-se a uma sociedade de mercado, descolando a economia real da economia financeira especulativa, esta comandando aquela. Confundiram desenvolvimento com crescimento, aquele como o conjunto de valores e condições que permitem o desabrochar da existência humana e este como mera produção de bens a serem comercializados no mercado e consumidos.

Entendem a sustentabilidade como a maneira de garantir a continuidade e a reprodução do mesmo, das instituições, das empresas e de outras instâncias, sem mudar sua lógica interna e sem questionar os impactos que causam sobre todos os serviços ecossistêmicos. São reféns de uma concepção antropocêntrica, quer dizer: todos os demais seres somente ganham sentido na medida em que se ordenam ao ser humano, desconhecendo a comunidade de vida, também gerada, como nós, pela Mãe Terra. Mantém uma relação utilitarista com todos os seres, negando-lhes valor intrínseco e por isso como sujeitos de respeito e de direitos, especialmente o planeta Terra.


Por considerar tudo pela ótica do econômico que se rege pela competição e não pela cooperação, aboliram a ética e a dimensão espiritual na reflexão sobre o estilo de vida, de produção e de consumo das sociedades. Sem ética e espiritualidade, nos fizemos bárbaros, insensíveis à paixão de milhões de milhões de famintos e miseráveis. Por isso impera radical individualismo, cada país buscando o seu bem particular por em cima do bem comum global, o que impede, nas Conferências da ONU, consensos e convergências na diversidade. E asssim, hilariantes e alienados, rumamos ao encontro de um abismo, cavado por nossa falta de razão sensível, de sabedoria e de sentido transcendente da existência.


Com estas insuficiências conceituais, jamais sairemos bem das crises que nos assolam. Este era o clamor da Cúpula dos Povos que apresentava alternativas de esperança. Na pior das hipóteses, a Terra poderá continuar mas sem nós. Que Deus não o permita, porque é “o soberano amante da vida” como atestam as Escrituras judaico-cristãs.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.


Imagens: cenas das animações criadas nas aulas de artes visuais, ptofª Imaculada Conceição, turma 1802, sobre a Conferência Rio+20: http://artemariopiragibe.blogspot.com.br/2012/06/vinhetas-anunciando-rio20-alunos-da.html -
http://imaculadacon.blogspot.com.br/2012/06/no-clima-da-rio20.html


(*) Postado por Imaculada Conceição M. Marins [texto reproduzido da página de Carta Maior: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5662


sábado, 21 de agosto de 2010

A APLICABILIDADE DO PENSAMENTO FILOSÓFICO NA ARTE EDUCAÇÃO




Antonio Bokel


A APLICABILIDADE DO PENSAMENTO FILOSÓFICO NA ARTE EDUCAÇÃO


“Não se deve ensinar pensamentos, mas a pensar; não se deve carregar o aluno, mas guiá-lo se quer que ele seja apto no futuro a caminhar por si próprio. [...] Ampliar a aptidão intelectual dos jovens que nos foram confiados e formá-los para um discernimento próprio [...] Semelhante procedimento tem a vantagem de que o aprendiz, mesmo que jamais chegue ao último grau, como em geral acontece, terá sempre ganho alguma coisa com o ensino e se terá tornado mais atinado, senão perante a escola, pelo menos perante a vida."
Immanuel Kant(1)

Imaculada Conceição


É difícil falar a propósito da necessidade do estudo filosófico no âmbito da prática da arte educação sem tocar neste ponto essencial: de que essa necessidade não difere em nada da que podemos exigir para todas as ordens da realidade humana. Qualquer que seja a área de estudo, pesquisa ou ação, o pensamento filosófico e reflexivo é de suma importância.

A origem da filosofia confunde-se com a origem das primeiras indagações humanas (primeiras, porque essenciais) em suas tentativas de compreender o mundo, a realidade e, sobretudo, buscar um sentido para a própria existência.

O “papel” da filosofia (se formos procurar por uma “utilidade”: sempre tão exigida!) é o de contribuir através do exercício do pensamento, da reflexão e da crítica para que nos tornemos mais conscientes, não apenas de nosso próprio ser (i.e., nossa singularidade enquanto indivíduos, únicos e insubstituíveis), mas também de nosso fazer e de nossa inserção no mundo (o espaço sócio-histórico-cultural-etc. do qual fazemos parte), portanto, como sujeitos históricos, sociais e políticos que somos. Mas é especialmente na consciência de sermos integrantes de uma mesma comunidade: a comunidade humana (pessoas que têm direitos, mas também deveres, sobretudo éticos; pessoas que diferem em suas contextualidades e se assemelham por nossa humana origem comum), que o pensamento filosófico participa mais ativamente. Mas e quanto à educação em arte?

Poesia visual de Alex Hamburg

Poucos devem duvidar da importância do pensamento reflexivo nas várias áreas do conhecimento humano. Mas talvez haja alguns que ainda questionem qual a real aplicabilidade do estudo filosófico numa área de natureza essencialmente prática, como é o caso da arte educação. É ter no entanto a vista curta ou não estar disposto a penetrar no coração mesmo do fazer artístico (seja este de natureza musical, teatral, literária, visual etc.).

Toda atividade artística exige um pensar específico (o pensamento visual, o pensamento espacial, o pensamento musical etc.) e uma inteligência própria que o viabilize. Ora, quem duvida que um músico não precise de uma atividade intelectual para criar e executar suas composições musicais? Ou que arquitetos não aliem inteligentemente visualidade espacial, beleza e cálculos matemáticos para o sucesso e viabilidade de seus projetos? Ou que um perfumista não faça plenamente uso de suas faculdades mentais para aliar conhecimentos de química com o prazer sensível de suas misturas aromáticas? Ou que um desenhista industrial não precise de uma inteligência matemática e de um atento senso comum para aliar prazer estético, praticidade e utilidade? O fazer artístico depende de um pensamento reflexivo capaz de conectar elementos diversos pertencentes às nossas múltiplas faculdades (capacidades), tais como o entendimento, a imaginação, a sensibilidade etc.(2)

Certo, nossos alunos não são - ao menos ainda e talvez nunca pensem mesmo em ser - artistas plásticos, músicos, paisagistas, dramaturgos, estilistas, escritores, cenógrafos, cineastas, fotógrafos, dançarinos etc. Aliás, não é objetivo da arte na escola fundamental formar artistas e/ou críticos de arte; mas oportunizar o exercício do fazer/pensar/julgar/experimentar arte (numa compreensão de suas contextualizações). O que eu quero sublinhar aqui é que o exercício do fazer artístico não difere muito do de um profissional para o de um “amador” (alguém que só faz por hobby ou pelo simples prazer de fazer gratuitamente), assim como não mais para o de nossos alunos.

Henry Matisse

O que difere a prática artística profissional da gratuidade singular (“desinteressada”) de todo fazer/pensar artístico (o “livre jogo das faculdades”) é a intenção (o “interesse”) - que se concretiza no final do processo. O processo em si (i.e., enquanto forma de pensamento) não difere muito. Nosso aluno, quando da construção de seu trabalho de arte, faz uso, tanto quanto o artista profissional, do “pensamento reflexivo” - que é a raiz do pensamento estético(3). O que difere é que ele não tem por pretensão, por exemplo, sua inserção no Mercado e/ou na História da Arte, sua pertença ao meio artístico etc. ( - isso que não elimina toda “intencionalidade”, mas marca uma diferença de perspectiva e de orientação final desta, que, no caso, estaria orientada especialmente para o processo de construção do trabalho – inclusive como produto final, porém indiferente ao que não seja o simples fazer/criar; em outras palavras: a interconexão do pensar-fazer). Em comum ainda, além do pensamento reflexivo, a capacidade de interagir e comunicar-se: elos de conexão do pensamento e sentimentos de quem cria e/ou aprecia e ajuíza com toda a comunidade humana.


Cena de "Animação Trash: Nossas Primeiras Experiências" realizada pelos alunos da E.M. Mario Piragibe na Oficina Itinerante de Animação(Núcleo de Arte Grande Otelo) (4)


Pensar e fazer ou fazer e pensar são duas faces de uma mesma inserção no mundo. Ambos estão de tal modo intimamente conectados que o simples imaginar uma prática sem pensamento ou um pensar sem uma prática não passa de fato de uma quimera (talvez, mesmo, inconcebível, inimaginável, impensável: pois ao conceber, imaginar ou pensar, já não estamos nós praticando um ato - mesmo que seja o ato íntimo de cogitar? - e este não pode, cedo ou tarde, vir a inserir-se no mundo e tornar-se realidade sob alguma forma?).

Pode-se pensar mal. Ou pode-se agir irrefletidamente (i.e., sem uma reflexão consciente das causas que originaram os nossos atos ou das conseqüências que eles terão). Pode-se negligenciar a conexão essencial entre o pensar e o agir; mas não se pode evitá-la (ao menos enquanto em pleno uso de nossas consciências). O mais simples fazer exige alguma forma de pensamento e uma inteligência específica que o acompanha. O mais elementar ato de pensamento exige uma ação que se executa no próprio ato de pensar; ou, em um nível mais elaborado, no construir-se como forma aplicada de pensamento (como obra, método, fala, informação, comunicação etc.), i.e., sua aplicação (realização) na ordem do real; ou, em uma etapa ainda mais completa (e complexa): na transformação da ordem do mundo e da vida.


Parangolé de Hélio Oiticica


(1) KANT, I. Lógica (Apêndice: “Anotações do professor Immanuel Kant sobre a organização de suas preleções no inverno de 1765-1766”).

(2) e (3) KANT, I. Crítica da Faculdade do Juízo – a terceira Crítica kantiana, onde o filósofo aborda o pensamento estético.
(4) Assistam a primeira parte de "Animação Trash: Nossas Primeiras Experiências": http://nucleodeartegrandeotelo.blogspot.com/2009/10/as-animacoes-de-nossos-alunos-estao-na.html

domingo, 8 de agosto de 2010

SOBRE O PLANEJAMENTO DE ARTES VISUAIS


guache s/ papel (tema corpo humano)

O porquê de um planejamento curricular único em artes visuais no ensino fundamental


Profa. Imaculada Conceição

Há alguns anos, decidi substituir o planejamento curricular por séries por um planejamento único. O que causou certa curiosidade entre os colegas que queriam saber se o trabalho assim não ficaria “repetitivo”. Foi pensando numa resposta que preparei este texto, escrito inicialmente em 2003, e que, com algumas modificações, passou então a acompanhar, em anexo, meu planejamento anual da escola.

Há uma frase, cuja autoria desconheço, que li numa revista (já fora de circulação) editada pelo CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil), Veredas (2003), que diz: “Todo grande artista um dia foi pequeno”. Essa frase "identifica" meu projeto de trabalho. Não que ele se volte para a formação de pequenos artistas, afinal essa não é nem de longe a proposta do ensino das artes na educação fundamental. O que quero dizer é que assim como todo artista começa com os mesmos elementos básicos da construção da visualidade e vão “progredindo” em seu uso, também nossos alunos precisam partir do uso e do conhecimento desses mesmos elementos básicos e, ao se apropriarem deles, irem progredindo em seu uso.

Os projetos desenvolvidos pela escola (ou pela Rede) a cada ano letivo são integrados ao planejamento de base, assim, a diversidade entra através de várias formas de propostas de trabalho com as turmas. Propostas que se delineiam a partir das mais diferentes situações.(1)

Neste planejamento (único) de base, enfoco elementos essenciais das artes visuais, dos quais os artistas (e qualquer pessoa que se veja diante de uma criação visual) trabalham constantemente, como, p.ex., cor, forma, proporção, luz/sombra, espaço/tempo, movimento; a matéria usada, o suporte, as técnicas etc. Enfoco, ainda, os modos de ver as artes visuais, a compreensão dos estilos artísticos, dos gêneros de composição etc. Por se tratarem de elementos pertinentes a toda criação visual, estes são lançados logo nos períodos iniciais e rememorados até a última etapa do ensino fundamental. Um dos motivos de rememorar, além de uma maior vivência com esses elementos essenciais das artes, é que todo ano nos chegam muitos alunos novos que nunca estudaram arte e tudo é novidade.

Vejo como essencial também o conhecimento do percurso histórico da arte. No entanto, como os períodos (Renascimento, Barroco, Modernismo etc.) já são estudados nas aulas de História, dou-me à liberdade de trabalhar independente destes. Assim, priorizo um enfoque global.


Eat-art: "Como era gostosa minha obra: Arte devorada"!

Desde a etapa inicial de meu trabalho com os alunos, deixo claro que as artes (no caso, as visuais) tiveram todo um percurso de criação durante a longa história dos humanos sobre a face da Terra. E que toda criação artística recebe influência não apenas dos períodos históricos, mas também de motivos pessoais (subjetivos) daquele(s) que concebe(m) e cria(m) a obra, do meio sócio-econômico-político-religioso etc. Enfim, que uma infinidade de motivos pode originar o acontecer da arte.

Vejo ainda como importante que os alunos comecem por conhecer o que é considerado atualmente arte; não apenas nas chamadas artes plásticas, mas nas artes visuais de um modo geral (o design industrial, a programação visual, a computação gráfica etc.), além de lembrá-los que existe uma infinidade de outras artes (como a música, o teatro, o cinema, a literatura etc.), visto que as ditas “artes plásticas” (cuja matéria leciono) mantêm no mundo contemporâneo um intercâmbio, melhor, uma forte interação com as diferentes linguagens artísticas.


Poesia visual (tema "eat-art")

Logo nas etapas iniciais (o que se propagará por todas as ulteriores) já apresento obras modernas e contemporâneas – mais próximas à vivência dos alunos, à nossa época -, das quais eles apreciam as construções visuais, estilísticas, as contextualizações etc. Apresento então aos alunos a tríade das artes contemporâneas: criação (original) X reprodução (cópia) X apropriação (recriação a partir de uma releitura). Mas sem fazer disso uma obsessão, como vejo muito por aí. Apenas para possibilitar uma melhor compreensão de grande parte da visualidade contemporânea.

Acho relevante ainda ver os conceitos de arte “perene” e “efêmera” relacionando-os a uma compreensão dos valores (efêmero-perene) da vida e do mundo. Vejo também como interessante incluir observações pertinentes à mútua referência entre valores éticos e valores estéticos, ou seja, a relação entre as mudanças éticas (ocorridas no mundo geográfico-historicamente) e as mudanças estéticas (nas artes).


guache s/ papel A4 (tema corpo humano)

“Todo grande artista um dia foi pequeno” – quer dizer, todo artista começa com os mesmos elementos e vão “progredindo” em seu uso - de modo que a palavra “pequeno” tem dois sentidos, duas interpretações: um dia este foi criança ou adolescente (como nossos alunos agora) ou um dia, em início de carreira, este não era ainda um “grande artista” -. Para que os alunos não tenham as mesmas dúvidas que alguns colegas professores têm em relação ao planejamento único, procuro explicar-lhes que em toda criação plástica eles sempre farão uso destes elementos básicos das artes visuais. E se “não fica repetitivo” é que, a cada novo ano, de acordo com os projetos trabalhados pela escola, seleciono como ponto de partida para as propostas reflexões, criações e uso dos conceitos artísticos e/ou artistas ou obras de artes “inéditos” aos olhos dos alunos. O mundo das artes é amplo - sua história remonta aos primeiros passos da humanidade ainda na Pré-história e está sempre se renovando!


Esculturas em papel

Uma mesma proposta trabalhada – ou iniciativa dos alunos - terá diferentes respostas conforme o nível turma - sobretudo se houve ou não a oportunidade de uma vivência em artes em todas etapas anteriores. O que muda na aplicação prática é o grau de complexidade na abordagem, no pensar, no fazer e vivenciar a arte.

Gosto de lembrar o seguinte acontecimento. Certa vez, um grupo de alunos, quando esses estavam na então 6ª série (atual 7o. ano), já tendo terminado as atividades propostas, para não ficarem “à toa”, sentaram-se juntos e tiveram a iniciativa de (re)construir uns desenhos inspirados num famoso desenho-animado japonês, em que eles disseram ser uma “evolução” (tal como esses bonecos sofriam nos programas exibidos pela TV na época) - porém, no caso, uma “evolução” especialmente criada por eles. Ao me entregarem suas produções, me prometeram uma nova “evolução” para o próximo ano: o que cumpriram! Eu havia guardado os trabalhos e pude constatar com eles que, de fato, esses desenhos eram mesmo uma “evolução”! Já que, além das características (as “mutações”) criadas para os bonecos, a ousadia dos traços, a inteligência das formas, a ocupação espacial, o uso criativo da cor, dentre outros elementos essenciais da visualidade estavam bem mais trabalhados. As criações dos alunos realmente “evoluem”, se “aprimoram” com o tempo (melhor seria dizer se “diferenciam” das etapas anteriores de sua formação e desenvolvimento humano-temporal-cultural-etc.), mas, os elementos básicos da construção visual “permanecem” – assim ao menos dentro de nossa cultura - caberá a eles (nossos “pequenos”), depois de se familiarizarem com seu uso (i.e., aprenderem pela repetição criativa, apropriação dos fazeres e saberes e o pensar reflexivo), um dia (quem sabe?), tudo mudar, transformar!


NOTAS:
(1) P.ex., a partir de um e-mail que recebi sobre as polêmicas em uma das Bienais de SP é que tive a ideia de trabalharmos “sticker art”(*); já em outra ocasião, uma série de fatores como, uma exposição de jovens artistas contemporâneos no MAM-RJ e uma outra no CCBB-RJ sobre a arte cinética de Mary Vieira, um livro de Onfray – A Razão Gulosa - , um projeto da Rede ligado ao programa nutricional “Cinco ao Dia” – de incentivo ao consumo de frutas, legumes e verduras ao menos cinco vezes ao dia -, etc. – levou-me à proposta de trabalharmos “eat art” (ainda pretendo postar - em "Histórico de Arte da Mario" - sobre este trabalho realizado em 2005); ou, mais recentemente, as oficinas de Animação que fiz (AnimaEscola/Animamundi e as da MultiRio) resultaram em uma série de propostas inserindo a linguagem do cinema de animação nas aulas regulares de artes(**) - etc.

(*)Ver link: http://artemariopiragibe.blogspot.com/2010/05/joao-candido-e-revolta-da-chibata.html
(**)Ver tag "Animação" no blog do Núcleo de Arte Grande Otelo: http://nucleodeartegrandeotelo.blogspot.com/search/label/Anima%C3%A7%C3%A3o Algumas das animações tiveram a participação de trabalhos produzidos por nossos alunos nas aulas "regulares" de artes (como, p.ex., alguns dos folioscópios e flipbooks): ver "ANIMAÇÃO TRASH: NOSSAS PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS - PARTE I": http://nucleodeartegrandeotelo.blogspot.com/2009/10/as-animacoes-de-nossos-alunos-estao-na.html


"Brasil Arte" (pintura no chão)

Fotos: Imaculada Conceição

quinta-feira, 8 de julho de 2010

PROF. RAFAEL ESCREVE SOBRE A COPA!



COPA DO MUNDO, NÃO NA TV



Rafael Rossi (*)

A Copa do Mundo 2010 foi a Copa das zebras. Apesar disso, no fim, nenhuma grande surpresa: nem a disciplina, nem a habilidade e o talento fizeram alguma diferença nesse Mundial. Terminadas as quartas de final, o mesmo velho futebol europeu retoma sua hegemonia e uma Alemanha, melhor que a de outros tempos é verdade, mas ainda assim o futebol alemão da tática e da técnica sem nada de verdadeiramente extraordinário. A Copa do Mundo segue sem Messi e Robinho para dar brilho há uma competição que já faz muito tempo que é dominada pelos interesses do mercado.
É triste ainda ver a derrota da equipe de Dunga e ter que ouvir a Globo dizendo triunfante: “Nós avisamos!”. A Rede Globo torceu o tempo todo contra a seleção e isso porque não podia controlá-la. Essa não foi uma seleção marcada pelo futebol bonito, pelo futebol arte. Mas também não era a seleção tetracampeã de Parreira, nem a pentacampeã de Felipe Scolari. Dunga, como técnico da seleção brasileira, ganhou a Copa América, a Copa das Confederações, o primeiro lugar nas Eliminatórias da Copa do Mundo, o bronze olímpico e chegou com a seleção até as quartas de final da Copa do Mundo, assim como a poderosa Argentina de Maradona e Messi. Então, por que críticas tão contundentes a Dunga? Porque foi ele que ainda como capitão da seleção brasileira não concordava com a interferência de grandes empresas como a NIKE. Basta lembrar que diante da convulsão de Ronaldinho Fenômeno e da escalação de Edmundo em seu lugar, ele defendeu que Edmundo jogasse, quando Zagallo teve que voltar atrás e escalar o Ronaldinho, mesmo sem condições, porque ele era o garoto-propaganda da NIKE. Como técnico, Dunga se enfrentou com a Rede Globo que quer escalar o time, o técnico, ter entrevista exclusiva, ou seja, mandar na seleção. E quando não consegue o que quer, esta emissora, antiga aliada da ditadura militar, boicota e forma a opinião pública, manipulando a informação e usando da repetição, colocando em todos os seus programas, tenham ou não a ver com aquele tema, aquele assunto, a mesma mensagem. O atual técnico do Brasil também barrou os jogadores mercenários, que só jogam pelos seus clubes na Europa, ganhando milhões de dólares, e só vão para a Copa do Mundo para exibir o seu talento e valorizar o seu passe. Em tempos em que o mercado e sua lógica dominam também o mundo do esporte, exigir comprometimento, amor à camisa, espírito de equipe não é secundário. Todos os jogadores, que jogando bem ou mal, inegavelmente, lutaram até o fim no jogo contra a Holanda, disseram a mesma coisa, que estavam todos tristes no vestiário, o que é muito bom, pois evidencia que estava a equipe inteira disposta a vencer realmente. E isto deve ser ressaltado.
Então, por que, apesar disso tudo, tanta comoção entre os brasileiros. Simples: porque tudo que nós temos é o futebol. Nós vivemos num país miserável, onde poucos têm muito e a grande maioria se vira como pode. Um salário-mínimo de miséria de pouco mais de 500 reais e uma Bolsa-Família que não garante uma vida digna aos milhões de brasileiros que vivem na mais absoluta miséria, porque não têm moradia, emprego, saúde, educação e um salário que garanta a sobrevivência e muito menos o acesso a bens culturais e lazer, são a triste realidade dos brasileiros. No esporte não é diferente. O Brasil não é o país do esporte, é o país do futebol. Tanto que quando tem Olimpíada é sempre um fiasco. Voltamos para casa com meia dúzia de medalhas de bronze e uma ou outra de prata e ouro. Não existe investimento do Estado no esporte. Então, tudo que temos é o futebol. E o brasileiro deposita todas as suas esperanças, projeta todas as suas expectativas no sonho de ser campeão mundial de futebol para dizer ao mundo: “Nisso nós somos melhores que vocês! Nossos políticos são corruptos, nossas escolas não têm professores, nossos hospitais e postos de saúde não têm médicos e remédios e nós morremos nas filas dos hospitais públicos, nós vendemos soja, carne e suco de laranja no mercado mundial e importamos os seus computadores, mas somos os melhores com a bola no pé!”. É triste. E a mídia manipula e faz do nosso futebol, motivo de grande orgulho, um verdadeiro “pão e circo”. Toda quarta e domingo tem futebol na telinha da Rede Globo, logo depois da novela e durante o Domingão do Faustão e ficamos parados diante da TV, ouvindo o Galvão Bueno e esperando que o próximo gol possa nos redimir do nosso destino de fracassos e frustrações.

Voltando ao Mundial da África do Sul, podemos desligar sem culpa os nossos televisores. Nenhum time da África, pela primeira vez sede de uma Copa do Mundo de Futebol, continua na competição, nem o país sede – a África do Sul -, nem as tradicionais Nigéria e Camarões, nem a heróica Gana, que chegou até as quartas de final. O Brasil, único país pentacampeão, foi para casa; a Itália, campeã da última Copa, foi para casa logo na primeira fase; e a Argentina, a melhor seleção dessa Copa, com os mais belos dribles, que só somava vitórias até tropeçar na Alemanha, que na primeira fase fez um jogo treino com a Austrália e perdeu de 1 a 0 para a Sérvia, também o time de Maradona foi para casa. O mesmo Maradona que jogou na mesma época que Zico e que continuou até a época de Romário e Roberto Baggio, sendo o melhor dentre todos eles, e que tinha o melhor jogador da Copa em sua equipe – Messi – que encantava com seus dribles e passes maravilhosos. Depois desse final de semana, podemos esquecer a Copa do Mundo. Ignoremos os comentários ridículos da Globo sobre a convocação de Dunga, que não levou Ronaldinho Gaúcho e os meninos do Santos, sendo que, em 2002, o Felipão barrou o Romário, um craque de verdade, e não sofreu tantas críticas assim, sendo de fato o determinante a relação que os treinadores estabelecem com a mídia e com as grandes empresas. Ignoremos a melhor seleção da Alemanha dos últimos tempos, a Espanha, a favorita que chegou até a semifinal aos trancos e barrancos, o Uruguai que é o América das seleções: já foi um grande time no passado, tem tradição, tem história, mas já não joga bola e disputa campeonato de verdade há muito tempo (com todo o respeito à Celeste). E a Holanda, a Laranja Mecânica? Bom, provavelmente, vai perder na semifinal ou na final, não importa. Pode ser até uma seleção tradicional e que joga bem, mas não promete grandes emoções, nada que poderíamos ter dos pés de Messi e Robinho. Mas nada disso deve ser motivo de surpresa, afinal, a zebra é um animal da fauna africana.


Rafael Rossi, professor de História de nossa escola e mestrando em História pela UFF

(*) Publicado originalmente no Recanto das Letras em 03/07/2010 http://recantodasletras.uol.com.br/cronicas/2356545

Origem das imagens: Bandeira (Google); mascote: pintura de alunos da E.M. Mario Piragibe

NOTAS com sugestões de textos sobre a Copa em: http://imaculadacon.blogspot.com/2010/07/um-texto-sobre-copa-do-mundo.html

terça-feira, 11 de maio de 2010

NA TERRA DA SAUDADE...


NA TERRA DA SAUDADE...


Como aprendemos e nos divertimos com nosso prêmio de viagem a Portugal


[ Histórico de Arte da Mario: Texto de 2008, originalmente um e-mail contando as novidades a um amigo "virtual", transformado em Relatório de Viagem entregue à Prefeitura do Rio. Esta versão simplificada foi solicitada, posteriormente, pela própria Prefeitura ]



As viagens são os viajantes. O que vemos não é senão o que somos.
Fernando Pessoa






Imaculada Conceição


Ano passado (2007), como preparativo às comemorações para o bicentenário da chegada da Família Real portuguesa ao Rio de Janeiro (1808-2008), eu, professora de Artes da 6ª.CRE e minha aluna, Karoline Brum, ganhamos um prêmio de viagem a Portugal. Seu desenho foi o vencedor das escolas do município do Rio. A aluna Haymara Reis (7ª.CRE), autora da redação premiada sobre o tema, e sua professora orientadora, Kátia Cordeiro, de História, foram nossas companheiras de viagem, juntamente com as mães das meninas, Fátima e Jomária.

Encontrei-me com o grupo já no saguão do aeroporto (havíamos combinado de irmos todas juntas numa van da 6ª.CRE, mas, por motivos pessoais, precisei buscar outro meio de transporte). Lá, Gustavo, fotógrafo da Prefeitura, registrou o nervosismo dos últimos preparativos rumo a nossa lusa aventura, que às 23 horas de um sábado, 26de julho de 2008, dava início ao embarcarmos no Tom Jobim, no Rio...

O desembarque no aeroporto de Lisboa foi recepcionado por Margarida, nossa simpática cicerone portuguesa, e Luis, o discreto motorista que nos guiou pelos trajetos turísticos. Após um breve tour de veículo pela Lisboa histórica, fomos conduzidas ao Hotel Arts Vips, na estação Oriente, na área do Parque das Nações, onde se realizou a Expo 98. Agradável e bem situado, tínhamos ainda o prazer de avistarmos, à entrada do hotel, um interessante mural de azulejos pintados à la pop-art e dos quartos, uma bela vista do estuário do Tejo.





Chegamos num domingo à tarde (27/07) e aproveitamos o dia livre para conhecermos melhor o “sítio” (como falam os portugueses) onde estávamos. Passeamos pelo Parque das Nações, tiramos fotos à beira do Tejo e almoçamos no Centro Comercial Vasco da Gama. Minha primeira (e boa!) surpresa foi ver que os portugueses são bem mais parecidos com a gente do que apenas o fato de compartilharmos a mesma língua... O povo de lá se parece muito com o nosso. Passeando pelo Centro Comercial me senti num destes shoppings daqui. Certo, shoppings centers (estas “catedrais do consumo”, como se diz) são shoppings centers em qualquer lugar do mundo! Mas eu falo das pessoas que por lá (e também pelas ruas, pelos metrôs, elétricos, comboios etc.) circulavam. Tudo com cara de brasileiro! Mas, a maior de minhas alegrias foi mesmo dar de cara com o clima quente do verão lisboeta, o ambiente ensolarado, o céu lindamente azul... Se Fernando Pessoa disse que sua pátria era a língua portuguesa, eu, por meu lado, diria que minha pátria é o clima, o ambiente em geral, quente e ensolarado, onde um fascinante céu azul cobre um povo simpático, receptivo, misturado, multicultural... Onde houver um clima assim, estarei em casa!



Na manhã seguinte, Margarida e Luis chegaram cedo ao hotel (não sem antes dar tempo de nos deliciarmos com o “pequeno almoço”, como eles chamam o farto café da manhã) para nosso primeiro passeio oficial. Fomos conhecer o bairro histórico de Belém e seus belos monumentos: o Padrão do Descobrimento, a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos, uma das maiores obras da arquitetura quinhentista, o estilo manuelino (fechado em nossa primeira tentativa de visita, retornamos depois...) etc.


No Mosteiro, surpreendeu-me o túmulo de Fernando Pessoa (o escritor português dos heterônimos: suas muitas faces literárias): um monumento um tanto sem graça (minha primeira impressão...), me lembrava aquele monólito do filme “2001: Uma Odisséia no Espaço”, o que contrastava com o pátio interno, o claustro, e o preciosismo de seus detalhes arquitetônicos.






Mas a idéia até que era boa, as faces remetiam aos heterônimos do poeta e numa delas líamos: “Não basta abrir a janela pra ver os campos e o rio. Não é bastante não ser cego para ver as árvores e flores” (Alberto Caeiro).

Na igreja do Mosteiro, uma parada para fotografar os túmulos de Camões e Vasco da Gama. Na saída, passamos para experimentar os famosos (e deliciosos!) pastéis de Belém e almoçarmos na praça...




Caminhamos pelo bairro do Chiado, pelo Bairro Alto, Bairro de Alfama - o mais antigo e pitoresco de Lisboa com suas ruelas, escadarias e roupas secando nas janelas e cuja arquitetura dos casarios me lembrava uma parte do Rio...



Fomos então ao Castelo de São Jorge, não sem antes, do miradouro, nos extasiarmos com uma das mais belas vistas panorâmicas da cidade de Lisboa e do estuário do Tejo! Muito linda Alfama (este bairro histórico, cujo nome deriva do árabe e significa “fonte d’água”) vista do alto, com seu traçado irregular e bonitos telhados. Subimos às torres do Castelo, passeamos pelas plataformas das muralhas...




Fomos também ao Museu dos Coches, à Fundação Calouste Kulbenkian, ao Museu da Cidade de Lisboa (onde conhecemos um pouco da história da cidade, o terrível terremoto que a destruiu em 1775 e sua posterior reconstrução). Alguns pontos só vimos de dentro do veículo turístico: a Ponte 25 de Abril, o monumento Cristo Rei que semelha nosso Redentor carioca, a Praça do Comércio...


Noutra ocasião, visitamos o Palácio de Queluz e seus encantadores jardins, freqüentemente comparados aos de Versailles. Lá como em outros palácios que visitamos, Mafra, Palácio Nacional da Ajuda etc., encontramos a presença da realeza portuguesa que em nossas terras aportaram: D. João VI, D. Maria I, D. Carlota Joaquina, D. Pedro I (ou D. Pedro IV, título que nosso imperador ganhou ao retornar a seu país e que deu nome a uma famosa praça do centro de Lisboa, apelidada pelos portugueses, do Rossio) etc.

Numa das noites, no Bairro Alto, visitamos uma casa de Fado, onde nos deliciamos com as canções sobre Lisboa, saudades, amores, desencontros, paixões tristes... e, claro, as gostosuras da culinária portuguesa! Os artistas manifestaram muita alegria em ver que éramos brasileiras. Dedicaram músicas em nossa homenagem... Achei tudo muito simpático! E saber que entramos nesta casa meio que por acaso... Diria... pelo “destino”? - que é o que significa a palavra “fado”, do latim “fatum”! Foi uma noite bem alegre! Comemos bem, nos divertimos, Jomária se empolgou e até cantou!


No último dia de visita guiada (31/07), fomos a Cabo da Roca (a ponta mais ocidental do continente europeu, assim definida por Luis de Camões: “Onde a terra acaba e o mar começa”). Em Sintra, a bela cidade que inspirara o poeta Lord de Byron, infelizmente deu só pra tirar umas fotos, comprar uns postais, uns suvenires... No veículo, recebemos um sedutor folder com informações dos pontos turísticos (castelos, palácios, museus, adegas etc.). Ficamos apreciando Sintra impressa no papel, enquanto seguíamos para Cascais...




Em Cascais, jantamos depois de irmos à praia... Em Ericeira (onde também há praias), havíamos almoçado sardinha assada (o prato favorito deles no verão, segundo nossa cicerone portuguesa), queijo, vinho...


E já que falo de comida, aproveito para contar nossa experiência com uma sobremesa portuguesa, “Leite Creme”, num restaurante no Centro Comercial Vasco da Gama, onde fomos quase que “ obrigadas” a provar, pois o garçom, não sabendo nos explicar o que era, disse que é o que nos serviria para conhecermos... Aceitamos. Garanto-lhes... Um doce pra lá de gostoso!


No dia livre (terça, 29), Karoline e Haymara, acompanhadas de suas mães, foram conhecer o Oceanário e andar de teleférico no Parque das Nações. Eu, a professora Katia e duas amigas suas, em passeio pela Europa, fomos a Óbido (nome de origem latina que, embora possa nos fazer lembrar de algo “macabro”, na verdade significa “cidade fortificada”), onde estão preservadas as ruínas de um castelo medieval e suas quilométricas muralhas!

Minha impressão geral foi a que eu disse no início... Nos shoppings, no metrô, pelas ruas me sentia no Brasil. Pelo povo, pelo clima (quente do verão lisboeta), pela língua, pela arquitetura (além de nossa lusa colonização, o Rio foi sede da Família Real portuguesa, que montou pra esses lados todo um cenário - arquitetônico, artístico, cultural etc. - bem a seu gosto, que incluía um gosto francês). As meninas se divertiam com tudo. E certamente aprenderam muitas coisas. Nas várias visitas aos museus, Karoline aproveitava e fazia esboços dos quadros e fotografava as imagens que ela gostava (ela me disse que era para umas idéias que estava tendo...). Hayamara mostrava-se atenta a tudo como que pensando que boa história aquilo não ia dar!

Enfim, hora de irmos embora... Em 1 de agosto, eu, Karoline e Fátima retornamos ao Brasil (a professora Kátia, Haymara e sua mãe permaneceram na Europa, para uma esticada a Roma). Nos despedimos de Luis e Margarida, que nos assessoraram até nosso embarque.


Na volta, o brilho do sol e o céu azul sobre o Atlântico deixaram minha alma ainda mais satisfeita... Não apenas pela volta ao lar, como pelo contraste com o ambiente da ida (durante a noite, as janelas fechadas, aquela escuridão mórbida dos corredores, as pequenas luzes no teto do avião pareciam velar uma noite interminável...). No aeroporto Tom Jobim, uma van da 7ª. CRE nos aguardava junto a nossos familiares ansiosos pelas novidades da terra que nos deixou de herança a palavra “saudade”...






Postado Por Imaculada Conceição Manhães Marins