segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

ARTE CONTEMPORÂNEA NA ESCOLA: PROPOSTAS DE ARTE EFÊMERA





PROJETO DE ARTES VISUAIS - PROPOSTAS DE ARTE EFÊMERA
turma 1901 - propostas concebidas a partir de visitações à ArtRio e ao MAM-RJ - 2011

Profª Imaculada Conceição M. Marins



Como trabalhar alguns conceitos da arte contemporânea na escola, em especial, a "arte efêmera"?

A partir do conceito de efemeridade (que não diz respeito apenas às artes, é um conceito muito forte no mundo contemporâneo e que merece sempre reflexão), escolhi a turma 1901 (uma das turmas do último ano do Fundamental II) para a realização desta proposta de arte. A escolha para a realização do trabalho foi por conta de uma oportunidade que a turma teve: a de participar de duas visitações a espaços externos ligados à arte moderna e contemporânea: ArtRio Fair (no dia 9 de setembro, de 2011) e MAM-RJ (20 de outubro, de 2011). Foram destas mostras (e dos artistas que a turma elegeu) que o trabalho se realizou.


turma 1901 na ArtRio

A Origem

Dois alunos da escola, Felipe e Thiago, da turma 1903, foram convidados para uma experiência pioneira, o projeto piloto de alunos de escolas públicas da Rede Municipal do Rio como monitores de exposições de artes - quando da visitação de escolas (ver notas 1 e 2). E a turma 1901 foi a primeira a conhecer de perto o trabalho desses alunos monitores, assim como, a primeira turma do Projeto a visitar a Feira de Arte Contemporânea do Rio de Janeiro, a I ArtRio, que aconteceu em setembro de 2011, na zona portuária do Rio, no Pier Mauá.


Os alunos Felipe e Thiago, na entrevista com profª Jacqueline Mac-Dowell (SME-RJ) para participar do projeto de monitoria


Compreendendo conceitos da arte...

De volta à escola, discutimos alguns conceitos da arte contemporânea, como o gosto pela reprodutibilidade incessante das imagens, a virtualidade, o simulacro, o "ilusionismo" das imagens de nosso mundo contemporâneo, a questão da "verdade" (da "veracidade dos fatos", da ambiguidade), a interatividade, a impermanência, a efemeridade, a imaterialidade, a preferência por temas ligados à política e às questões sociais etc.

Minha proposta é que os alunos compreendam há uma ideia, um conceito que norteia a obra de arte contemporânea. E que tudo que o artista vai usar para (re)criá-la precisa ter uma correlação com esta sua ideia proposta, com o conceito, com o "porquê" da obra (mesmo que o "porquê" seja não ter "porquês", seja questionar o porquê dos porquês).

Na arte contemporânea, a "ideia" é mais importante. E nem sempre acontece a feitura "manual" (e individual) da obra, muitos artistas contemporâneos contratam uma equipe de trabalho ou especialistas para auxiliá-los ou mesmo para "confeccionarem" a obra (arquitetos, engenheiros, biólogos, confeiteiros, químicos, marceneiros etc. - dependendo de quais profissionais serão necessários para a realização de suas propostas de arte). Quase sempre, porém, as obras tem uma (co)relação com a História da Arte e com o repertório da cultura e do conhecimento humano.




A partir da visitação à ArtRio, da qual não coloquei para a turma nenhum "pré-requisito", os alunos foram instigados a pesquisar mais sobre arte contemporânea e alguns de seus conceitos. E das pesquisas, fui colocando para a turma diversas questões para que os alunos refletissem, como, por exemplo, a questão da efemeridade da vida e de todas as coisas. A arte contemporânea costuma trabalhar muito esse conceito, mesmo que no fim das contas, os registros que são feitos das obras, tenham um caráter diferente (não-efêmero?) do proposto. Sim, porque os artistas e demais pessoas ligadas às artes (ou não... às vezes, apenas "visitantes", espectadores) realizam diversos registros (fotos, filmes etc.) que fazem a obra (per)durar para além do tempo a que se propunha.


Alunos fazendo seus registros fotográficos. Na ArtRio...

Na ArtRio...

No MAM-RJ...

Certo, a exposição não era sobre arte efêmera, e os trabalhos que os alunos viram na Feira de Arte (ArtRio 2011) tinham um cunho financeiro, eram "objetos" para serem vendidos, comercializados (portanto... para "perdurarem"?). Não que a arte efêmera não seja comercializável (seus "registros" gravam a "permanência" da efemeridade)... Havia alguns poucos exemplos que poderíamos denominar de arte efêmera. Por outro lado, toda a ideia em si era "efêmera": estávamos visitando uma exposição e isso ia terminar... logo íamos voltar para a escola e retornarmos para nossas casas, para nossas realidades... O que poderíamos fazer para que algo daí "perdurasse"; para que aquela experiência da visitação não se diluísse fugazmente, mas que conquistando a mente, penetrando na memória e encantando o coração se transformasse em conhecimento?

Vimos na ArtRio diversos trabalhos de diferentes conotações, questões políticas, questões lúdicas, subjetivas, questões sensoriais etc. Depois de conversarmos (pedi também que escrevessem) sobre a Feira de Arte e sobre o que eles compreenderam das diferenças entre a Arte Moderna e a Arte Contemporânea, assim como sobre os conceitos do mundo contemporâneo (que nada mais são do que as questões que tanto nos preocupam no mundo de hoje).

A arte contemporânea parte de conceitos do mundo contemporâneo, da vida contemporânea, do pensamento, da filosofia contemporânea. Conceitos ou questionamentos como, o fluxo do tempo, a efemeridade, o espaço do cidadão no mundo, o ativismo político, a geografia das nações, a geografia dos espaços urbanos, a ecologia, o ativismo ambiental, o "uso" político do corpo, a subjetividade, a liberdade de pensamento no mundo tecnológico, as relações em redes, a tecnologia de expansão - e a vulnerabilidade - das imagens e das relações, a questão da "autoria" e o "compartilhamento", a materialidade, as virtualidades internéticas, a ética contemporânea etc. etc.



"Vírgula no Infinito", de Gabriela Gusmão (MAM-RJ): "A mostra é composta de projeções de vídeos silenciosos, cada um com uma hora de duração, e aborda temas como sociedade contemporânea e tempo. A proposta é buscar o limite da percepção através dos vídeos, que possuem variações de luz e de movimento".(8)

"... o repouso é uma vibração feliz..." (Gabriela Gusmão)




Acima, na ArtRio, a turma 1901 visitando a Galeria Jean Boghici, que apresentava diversos trabalhos que faziam referências à memória da infância.


Acima, alunas da 1901 comentando o trabalho de Tatiana Blass(6) - que "registramos" em nossa visita ao MAM-RJ: trata-se um homem de cera com um holofote sobre si: ele vai derretendo durante o tempo em que a exposição permanece no museu, deixando transparecer seu esqueleto metálico, o que restará da obra? - além, claro, de todos os registros - fotográficos, fílmicos etc. -? Jogo conceitual entre o efêmero e o durável.




Quando surgiu a oportunidade para a turma 1901 de uma segunda visitação, agora ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), solicitei que o setor educativo enfatizasse trabalhos de arte efêmera: os arte-educadores do museu nos apresentaram Tatiana Blass (registros da performance "Metade da Fala no chão - piano surdo" e o "homem de cera") e Gabriela Gusmão (com a videoinstalação "Vírgula no infinito" - que não é propriamente uma arte efêmera, mas que trabalha a questão do tempo), entre, claro, diversos outros trabalhos de artistas modernos e contemporâneos expostos no MAM-RJ.


A proposta para uma proposta:

Para participar desta visita ao MAM, ao contrário da visita à ArtRio, coloquei um "pré-requisito": que os grupos (com uma média de cinco participantes cada) me apresentassem uma proposta de arte contemporânea efêmera (já que vinhamos trabalhando a questão em sala de aula). O projeto tinha de conter (por escrito e desenhado) o que se pretendia, qual material e a relação deste - que deveria ser de natureza "efêmera" - com a proposta do trabalho (caso o material não fosse "efêmero", o processo de aniquilamento da obra deveria ser).

Os alunos foram então instigados a criar propostas cuja tônica era a arte efêmera (i.e., proposta de arte que trabalha a questão da temporalidade - o tempo de cada coisa no mundo, o tempo da vida, o tempo que se acaba, o tempo que se perde, o tempo que se transforma, o tempo que se registra...) . Deixei em aberto tanto o tema (se subjetivo, político, social, existencial etc.), como o uso do material/suporte (usaram desde alimentos até "esculturas" com folhas de caderno, flores naturais e artificiais, massa de modelar e objetos em que atearam fogo ao término da exposição).

O tema sendo livre, eles podiam trabalhar qualquer questão: política, memória pessoal, sentimentos subjetivos, materialidade etc., desde que "conceituassem", colocassem o "porquê" e qual a relação com a efemeridade (o material deveria ser efêmero, i.e., perecível ou semi-perecível e/ou ter uma relação processual-temporal)! Os alunos tinham, portanto, um grande leque de possibilidades a escolher como "questão" para suas propostas. A maioria escolheu questões ligadas à subjetividade (como o amor, a amizade ou a memória da infância).


Deixei livre a escolha do tema (da questão), diferente de alguns outros trabalhos de arte efêmera já realizados na escola em anos anteriores, como, por exemplo, "Como era gostosa minha obra: arte devorada", de 2005, trabalho de arte comestível - Eat-art - que questionava os maus hábitos alimentares do mundo contemporâneo, incentivando a uma alimentação mais saudável -; ou "Arte pela Sustentabilidade: Intervenção na fachada da escola", de 2007, intervenção artística na fachada da escola no dia da Feira Integrada como finalização da proposta sobre consumo consciente de energia, trabalhada nos anos de 2006/2007; ou "'Sticker Art': Fragmentos da História: João Cândido e a Revolta da Chibata", de 2008, uma intervenção com stickers (reprodução de trabalhos dos alunos sobre a "Revolta da Chibata" impressos em papel etiqueta), na parede de uma escola de um bairro vizinho; ou "Scrap Arte Mario Piragibe", de 2008´-2009, proposta inspirada na "Mail-art" usando uma rede social muito em moda - e a favorita de meus alunos - na época (estabelecemos eixos temáticos para compartilharmos: identidade, meio ambiente...); ou "Experiência com arte ambiental", de 2010, uma intervenção dos alunos nos jardins da escola - etc. Nos exemplos acima (cliquem nos títulos), já havia uma questão pré-determinada e os alunos eram instigados a preparar propostas que a bem "resolvesse". No trabalho atual (2011), a questão ficou a escolha de cada grupo de alunos. O que foi "pré-determinado" é que se colocasse claramente a (co)relação da questão da proposta com a efemeridade; a pertinência da correlação ideia/conceito com a estética visual da obra.


Outras Correlações...

Nem sempre questões contemporâneas envolvem a arte contemporânea. O trabalho da turma 1901 sobre arte efêmera foi realizado no segundo semestre de 2011, nos meses de setembro, outubro e novembro. No primeiro semestre, nos ocupamos em especial com realizações plásticas e audiovisuais ligadas a nossa proposta de trabalhar o uso seguro e responsável da internet (ver postagem: cliquem aqui) - que é também uma questão de nosso mundo contemporâneo. O primeiro mês do segundo semestre, agosto, e uma parte de setembro, ainda foram para a conclusão desta proposta anterior (avaliação do trabalho, que foi feita a partir da análise interpretativa e crítica do filme "Confiar", levando em conta o que os alunos aprenderam sobre segurança e responsabilidade na internet durante as aulas -, a confecção de um novo mural e o compartilhamento da produção com a comunidade escolar - na U.E.xpondo II -, numa sessão de cinema para exibição dos vídeos produzidos pelos alunos e outros curtas sobre o tema, para as demais turmas, para convidados etc.).

No segundo semestre, aconteceram não apenas as citadas visitações da turma 1901 à ArtRio e ao MAM (que resultaram nas propostas de arte efêmera). Alunos de minhas outras turmas também participaram de visitações a espaços de cultura e educação externos: ao Centro Cultural Hélio Oiticica, ao CBBB-RJ, ao Cine Glória (por conta dos vídeos dos alunos de artes selecionados para I Festival Audiovisual da SME-RJ) etc., que resultaram em várias propostas de artes inter-relacionadas, visto enfatizarem questões contemporâneas, mas com focos diferentes (talvez eu ainda poste sobre estes trabalhos).


A entrega dos projetos

Os alunos da turma 1901 tiveram até o dia 19 de outubro (véspera da data da visita ao MAM) para apresentarem seus projetos. No dia 26 de outubro, eles apresentaram, em sala de aula, os "protótipos" de suas propostas de artes para os colegas de classe e para os educadores da escola (professores e funcionários) convidados. No dia 29 de novembro, um dos trabalhos participou da Mostra Literária da 6ªCRE.


Professores visitando e compartilhando a experiência


Fiquei bastante surpresa com o resultado! É bom lembrar que trabalhamos em sala de aula convencional, com materiais elementares, e dentro de uma carga horária bem curta! Falo isso não como "desculpa", exatamente pelo contrário, para mostrar que é possível realizar um trabalho de artes na escola, dentro do ensino formal, mesmo com tempo/espaço e recursos limitados. Claro que mais recursos e espaço/tempo favoráveis dariam uma outra dimensão (estética) aos trabalhos. As propostas apresentadas foram tais como "protótipos", que, no caso de uma exposição em espaços externos (numa Mostra de Arte ou numa exposição especial dentro da própria escola, como a Feira Integrada, por exemplo), precisaríamos de "recursos extras" para bem apresentá-las (assim como os artistas profissionais precisam de patrocínio para realizarem/concretizarem suas obras)! Graças ao patrocínio da direção da escola (para uma atividade extra-classe), um dos trabalhos pode ser apresentado na Mostra Literária da 6ªCRE. Confiram as propostas!


OS TRABALHOS APRESENTADOS:

O trabalho JARDIM DOS SENTIMENTOS mistura flores naturais e artificiais: fala sobre a efemeridade da vida e sobre os sentimentos verdadeiros e falsos.

Fragmento de texto do projeto dos alunos:
"A proposta do trabalho é demonstrar que na natureza, assim como na vida, tudo tem seu tempo, sua hora e seus limites, de nascer, viver e morrer. As flores são como os sentimentos que crescem pouco a pouco como a virtude do tempo. Há pessoas de vida e sentimentos verdadeiros e falsos, assim também são as flores. Se a gente não cuidar das flores de verdade, elas morrem, se não cuidarmos dos sentimentos verdadeiros, eles morrem, e só permanece o que é artificial."



Minha avaliação:
Os alunos montaram o trabalho num tabuleiro, mas poderíamos ter montado (tipo instalação) no chão, ou num "caminho"... A ideia é legal, contemporânea, e dentro da proposta que eu coloquei para esta turma - projetar e realizar um trabalho de arte efêmera! Se não estivéssemos em semana de provas, poderíamos (re)montar o ambiente/instalação outro dia, mas precisaríamos de muitas e muitas flores, "reais" e "artificiais", seria preciso, também, mais engajamento... Se ocupássemos um espaço coletivo da escola (parte do pátio, dos jardins, das escadarias etc.) para deixar o trabalho exposto por uns dias, presenciaríamos, então, as flores naturais irem murchando, até só restarem as artificiais...


A CASA DE DOCES DOS SONHOS é uma casa lúdica e comestível feita de balas e doces, para ser partilhada ao final da exposição.


Fragmento de texto do projeto das alunas:
"A proposta da Casa de Doces dos Sonhos é a de fazer todos relembrarem os tempos de criança, da infância, em que se sonhava ter uma casa de doces para se deliciar quando escutavam ou liam a fábula de João e Maria. Com nossa Casa de Doces, queremos que todos voltem aos tempos de infância, para se divertirem, saboreando as gostosuras da Casa de Doces dos Sonhos."


Minha avaliação:
As alunas alcançaram o objetivo proposto de construção de uma obra de arte efêmera, visto ser uma obra em que foram usados materiais comestíveis e, portanto, de pouca durabilidade - dura o tempo - salvo os registros fotográficos, escritos etc. - da exposição. Interessante o resgate e a partilha dos sonhos de infância - de uma infância em que meus alunos, adolescentes, estão deixando para trás ao entrarem na idade adulta. A infância parece passar rápido, mas os sonhos e as fantasias permanecem... Interessante também a referência do trabalho à fábula de João e Maria, a clássica história dos Irmãos Grimm, onde a casa de doces simboliza o encanto e a sedução que o "proibido", o ilícito, pode ter... Ao saborearem as delícias de que a casa de doces da fábula era feita, os personagens, João e Maria, tiveram de provar as amarguras de uma realidade nada bela: a casa era um velho e destruído casebre de madeira, habitado por uma bruxa má, que os faz prisioneiros, escravos de suas vontades e que, por fim, intenta devorá-los!
Poder rememorar a velha fábula e realizar o sonho de toda criança que a escuta ou lê (como dizem as alunas), mas em forma de obra de arte, sem os "perigos", remete a um movimento de catarse nesta passagem entre a infância e a idade adulta, que é a adolescência.


A participação da turma...


Durante a apresentação em sala de aula, os alunos conversaram com os visitantes sobre a intenção (a ideia) de suas propostas.



Compartilhando...

O trabalho A CASA DE DOCES DOS SONHOS foi indicado para participar da MOSTRA LITERÁRIA da 6ªCRE, no dia 29/11/11 (as alunas precisaram refazer o trabalho, já que este foi consumido no dia da apresentação em sala de aula).


Na Mostra Literária da 6ªCRE


CONTRASTE ENTRE PAÍSES - Dois bolos: um simples, sem confeitos, e outro maior, todo confeitado e com a palavra "Muitas Felicidades". Os bolos foram comprados prontos e colocados sobre círculos de notas fakes de dinheiro.


Fragmento de texto do projeto dos alunos:
"O trabalho propõe por frente a frente o contraste entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Através de bolos de diferentes tamanhos mostrar o nível de desenvolvimento entre certos países, dando foco principalmente à desigualdade entre eles, pois muitos dão prioridade a coisas supérfluas, enquanto outros dão bastante atenção ao desenvolvimento social de sua população."

Minha avaliação:
A proposta está interessante, embora o grupo não tenha deixado claro no texto do projeto (e nem nas indagações do público durante a apresentação) o porquê de ter escolhido bolos (embora fique claro o motivo dos tamanhos) como objeto-suporte (e qual a relação com a efemeridade). De qualquer modo, penso que nem tudo precisa ser "explicado" em artes (pelos artistas que conceberam/criaram a obra ou os espectadores). Isso até deixou o trabalho mais instigante... O espectador pode colocar para si o "por que?" E buscar... o "não-dito" na obra!
Interessante também o fato do grupo ter "comprado" os bolos, em vez de os terem feito (criado) com suas próprias mãos. A ideia, a conceitualidade da obra, foi o que prevaleceu. O grupo precisou deixar isso claro aos visitantes (uma professora chegou a colocar: "ah, mas esse trabalho não foi feito por vocês!" Não? Claro que sim! Na arte contemporânea o mentor da ideia proposta é que é o autor, o artista!).


BORBOLETA - Um bolo caseiro em forma de borboleta

Fragmento de texto do projeto dos alunos:
"As borboletas, após saírem do casulo onde viviam como lagartas, vivem apenas 24 horas, ou seja, um dia. E o bolo, quantos dias pode durar? Na exposição, algumas horas? Minutos? Até ser comido... Na geladeira, alguns dias. Tudo tem um tempo de duração..."

Minha avaliação:
Um trabalho em que a relação entre objeto-suporte-matéria e o conceito da proposta ficou bem clara nas palavras do projeto. A questão do tempo, do tempo da vida, de duração de todas as coisas... Muito boa a realização estética e a relação com a conceitualidade proposta.







ESTRUTURAS DE PAPEL - Trabalhos feito com folhas de caderno que remetem aos barquinhos (e outras dobraduras) de papel de nossa infância.

Fragmento de texto do projeto dos alunos:
"Esculturas de papel, com folhas de caderno, são efêmeras, pois foram feitas só para essa exposição, para a apresentarmos uma única vez, e não para guardarmos."

Minha avaliação:
A proposta da efemeridade está "bem resolvida", mas: por que folhas de caderno (e não outro tipo de papel)? Por que os barquinhos de dobradura e o balão? Uma referência à infância? O grupo não deixou claro no texto do projeto (e nem quando indagados durante a apresentação). Mas vejo como uma possibilidade de leitura, já que uma das galerias que visitamos na ArtRio mostrava trabalhos de arte com referência à infância. Além disso, como eu falei em relação ao grupo que apresentou "A Casa de Doce dos Sonhos", os alunos desta turma (último ano do Fundamental) estão numa fase de transição, adolescentes saindo "definitivamente"[?] da infância: vão deixar a sua escola "primária" e seguir para novas etapas de suas vidas... É uma leitura possível esta... Que outra ou outras há? O grupo poderia ter ousado um pouco mais (na realização estética da obra)? O trabalho pode gerar mais questionamentos...




AMOR SEM FIM - Massinha de modelar forma um coração e a palavra "amor".

Fragmento de texto do projeto das alunas:
"A massinha é modelável, flexível, como o amor, pode ficar dura, rachar, envelhecer, mas nunca acaba, como o amor. Mas pode também ser descartada, quando não é o verdadeiro amor."

Minha avaliação:
As palavras do projeto mostram qual a relação entre o conceito que se queria trabalhar e a materialidade com que a proposta foi realizada. Relação bem resolvida entre ideia e materialidade. Por outro lado, a realização estética da obra poderia ter sido mais trabalhada? Como?



AMOR, UMA CHAMA QUE SE APAGA: Um coração feito de papel crepom e fósforos virgens, com o objetivo de se acender os fósforos para o trabalho se consumir...

Fragmento de texto do projeto dos alunas:
"O porque desta obra? Fizemos essa obra inspirada em um sentimento, o 'amor'. O amor é um sentimento que não conseguimos explicar, ele simplesmente acontece. em alguns casos, esse sentimento dura para sempre, mas em outros, não. No começo é uma chama ardente, o 'amor', mas depois, essa chama se apaga. E foi exatamente para mostrar essa situação que o trabalho foi feito, é um sentimento forte, quente, mas que vai se acabando, como as chamas que o consomem."


Minha avaliação:
Este grupo foi o primeiro a entregar - muito antes do prazo que eu havia estipulado - o projeto e o trabalho (melhor: uma parte do trabalho, já que sua completude só se daria na consumação da obra em chamas, o que só ocorreu no dia da apresentação). A ousadia da proposta foi o que mais me chamou a atenção. Interessante a relação entre os elementos materiais do objeto-suporte (os fósforos virgens, o papel crepom, cujo fogo consome rápido...) e a ideia da proposta. Estética visual sedutora aliada à ousadia da ideia!









AVALIAÇÃO GERAL DA PROPOSTA

Nesta avaliação geral, vou repetir a minha avaliação - que considero ainda pertinente e de acordo com esta minha proposta atual - de um outro projeto de arte efêmera - "Como era gostosa minha obra... Arte devorada!" -, que trabalhei na escola há alguns anos: "Os alunos sempre estudaram sobre a arte que consta dos livros de História e que, em sua maioria, faz parte da dita 'arte perene'. E nós, mesmo o mundo tendo mudado, as mentalidades terem mudado, os conceitos de arte e obra terem mudado, continuamos reproduzindo dentro da escola conceitos modernos ou pré-modernos (nem sempre, é verdade, mas na maioria das vezes." [...] "Eu queria que os alunos tivessem uma experiência diferente com a arte. O trabalho dentro da escola acaba sempre ficando muito formal. Arte na escola é quase sempre com os mesmos suportes (de um modo geral, papel ofício, cartolina, folhas de caderno, às vezes, uma sucata, um TNT...), os mesmos materiais (geralmente lápis de cor, canetinha hidrocor, lápis cera, tinta guache...); e com tantas turmas lotadas, tão pouco tempo de aula, além da ausência de um espaço apropriado, muito raramente ousamos trabalhar algo que desvie do formal. E no entanto, esta ausência de um espaço apropriado é o que mais deveria nos incentivar a pensar algumas propostas com 'performances' ou 'intervenções', 'ocupações', entre outras experiências em artes cujo suporte é o próprio corpo ou o entorno, senão meramente a própria experiência (a experiência é a obra). Certo que nada disso é novidade no mundo das Artes, mas é uma experiência inédita para os alunos que têm então a oportunidade de aumentar seus conhecimentos em linguagens artísticas, seus conceitos em relação ao mundo contemporâneo e ainda ampliar suas experiências estéticas."


OUTRO TRABALHO QUE FIZEMOS POR CONTA DE NOSSAS VISITAÇÕES...


Eu penso que devemos aproveitar ao máximo as visitações a espaços externos à escola. Assim, não foi só a proposta de arte efêmera que realizamos por conta de nossas visitações aos espaços artísticos que visitamos. Vários trabalhos chamaram a atenção dos alunos(2) na visitação à ArtRio (no MAM, além das obras de Gusmão e Blass, foi um pequeno esboço de "A Negra", de Tarsila do Amaral, que causou uma certa polêmica, e do qual falarei em outra ocasião, se possível). Entre estes, estão os desenhos do espanhol Juan Francisco Casas (fotografado pela aluna, acima). São obras no estilo hiper-realista, onde o artista, a partir de fotografias, desenha com um preciosismo técnico usando como ferramenta a caneta esferográfica!


Desenhos hiper-realistas de Juan Casas(5)


Inacreditável, não? Quando retornamos à escola, propus uns trabalhos com o mesmo material, após termos lido um texto(4) sobre a história da caneta esferográfica: pode parecer banal, mas a esferográfica é uma das grandes invenções de nosso tempo! Confiram abaixo algumas experiências com caneta esferográfica realizadas pelos alunos (participaram desta atividade todas as minhas turmas do Fundamental II - e não apenas a t. 1901, que conheceu a obra de Juan Casas de perto - ; apresentei às demais turmas as reproduções fotográficas das obras do artista). Embora eu tenha achado melhor, em um primeiro momento, deixar (esteticamente) "livre" a realização dos alunos com a caneta esferográfica, pensei e planejei (mas ficará para uma próxima ocasião) um trabalho a partir de fotos (simples) do cotidiano tiradas pelos próprios alunos. Assim eles poderão vivenciar a experiência de como os hiper-realistas trabalham.(5)








MURAL COM OS REGISTROS FOTOGRÁFICOS: Pensei em criarmos propostas de arte a partir dos registros fotográficos dos alunos (que foram muitos!) nas duas exposições, mas "dificuldades técnicas" - para imprimir e/ou salvar em mídias - e o fato de estarmos nos aproximando do fim do ano letivo, portanto, termos muitas semanas de provas (internas e externas), a ideia ficou só mesmo na ideia... De qualquer modo, montamos um mural com alguns dos registros fotográficos para assim compartilharmos com a comunidade escolar, imprimindo na permanência da memória a efemeridade das experiências vividas e trabalhadas pela turma.




REFERÊNCIAS E NOTAS:

1 - Para saber como sua escola pode participar do projeto de alunos da rede municipal do Rio como monitores em exposições (em especial na ArtRio), fiquem atentos às postagens do blog Conexão das Artes SME-RJ: http://conexaodasartes-sme-rj.blogspot.com/search/label/ArtRio

2 - Duas postagens sobre o projeto piloto de alunos monitores: Rioeduca Net - A revolução Acontece: "Alunos da Rede Monitores na ArtRio: I Feira Internacional de Arte Contemporânea do Rio: http://www.rioeduca.net/blogViews.php?id=1549 e no Conexão das Artes SME-RJ: "Alunos do Projeto Piloto de Monitoria na ArtRio 2011 Visitando a SME-RJ": http://conexaodasartes-sme-rj.blogspot.com/2012/01/alunos-do-projeto-piloto-de-monitores.html

3 - "A Ciência de... uma caneta", Revista Sapiens - 100% Ciência, nº2, Super Interessante, Editora Abril, p.17. Texto sobre a caneta esferográfica que trabalhei com meus alunos.

4 - Sites de onde tirei as imagens do artista espanhol Juan Francisco Casas, que realiza desenhos com caneta esferográfica: "Desenhos realistas na ponta da caneta": http://blogs.pop.com.br/nerd-e-geek/desenhos-realistas-na-ponta-da-caneta/ - ou o site da Galeria Fernando Pradilla:

5 - Hiper-Realismo: "Hiper-realismo ou foto-realismo [registra] a ambição de atingir a imagem em sua clareza objetiva, com base em diálogo cerrado com a fotografia. Os hiper-realistas 'fazem quadros que parecem fotografias', afirma o crítico Gilles Aillaud"[...]"a imagem fotográfica é um recurso permanente dos "novos realistas", sendo utilizada de diversas maneiras. A foto é usada, antes de tudo, como meio para obter as informações do mundo, pinta-se a partir delas. O pintor trabalha tendo como primeiro registro os movimentos congelados pela câmera, num instante preciso." [...] "O mundo cotidiano retratado pelos hiper-realistas, em geral, refere-se aos aspectos banais, às cenas e atitudes familiares, aos detalhes captados pela observação precisa". http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=329

Este mês, janeiro de 2012, saiu uma reportagem sobre a artista na revista Dasartes: "Tatiana Blass", por Fernanda Lustosa: Dasartes - Artes Visuais em Revista, ano 4, nº19, verão de 2012, pp.44-46.


8 - Para conhecer minhas estratégias pedagógicas no enino da arte na escola fundamental, ler: "A aplicabilidade do pensamento filosófico na arte educação": http://artemariopiragibe.blogspot.com/2010/08/aplicabilidade-do-pensamento-filosofico.html - ou neste link: http://rioeducaideias.blogspot.com/search?updated-min=2010-01-01T00:00:00-08:00&updated-max=2011-01-01T00:00:00-08:00&max-results=1 - e ainda este outro texto: "Sobre o planejamento de artes visuais": http://artemariopiragibe.blogspot.com/2010/08/sobre-planejamento-de-artes-visuais.html

09 - Sobre arte efêmera: ONFRAY, Michel – “A Estética do Efêmero” (pp.163-190) in A Razão gulosa – Filosofia do gosto – tradução: Ana Maria Scherer (La raison gourmande, Philosophie du goût, Éditons Grasset & Fasquelle, 1995), RJ, Ed. Rocco, 1999. Uma leitura sobre a relação entre filosofia e arte efêmera. -
Na web, um site didático sobre: Arte Efêmera: http://www.itaucultural.org.br/efemera/abertura.html

10 - SCOVINO, Felipe (org.). Arquivo Contemporâneo, 7 Letras, Rio de Janeiro, (1ªed. 2009), 2011. Um material excelente para se compreender o pensamento e os processos criativos dos artistas plásticos contemporâneos é este livro de entrevistas com importantes nomes das artes plásticas brasileira, Anna Bella Geiger, Cildo Meireles, Ricardo Basbaum, Antonio Dias, Waltércio Caldas entre outros. / E sobre "arte conceitual", ver este post da Enciclopédia Itaú Cultural - Artes Visuais - Termos e Conceitos - Arte Conceitual: http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_IC/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=3187&cd_idioma=28555

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

"COMO ERA GOSTOSA A MINHA OBRA... ARTE DEVORADA!"

[Histórico de Arte da Mario - 1º sem./2005]



Como era gostosa a minha obra... Arte devorada


Exposições de arte comestível (Eat art) com frutas, verduras, legumes e outras gostosuras.
E.M. Mário Piragibe – RJ/ 2005

[Histórico de arte da Mario: Relatório da época da realização do projeto, 2005, portanto, algumas nomenclaturas não são mais usadas, como, p.ex., as "séries" (na época, eu trabalhava com turmas de 5ª à 8ª séries, correspondentes agora: 6º ao 9º anos).]


Profª Imaculada Conceição M. Marins



RELATO DA EXPERIÊNCIA


I. Qual o trabalho?


O projeto “Como era gostosa minha obra... (Arte devorada)” foi concebido e realizado nas aulas de Artes Plásticas, com turmas de 5ª a 8ª séries [atualmente, 6º ao 9º anos], como prolongamento do Programa “5 ao dia” (um programa nutricional de incentivo ao consumo de frutas, legumes e verduras), trabalhado por toda a escola no período da “Semana de Alimentação Escolar” e pelo PPP - Projeto Pedagógico da Escola - Ética e Cidadania - que neste semestre visava questões relativas ao meio ambiente e à saúde.

A idéia foi montar exposições (foram quatro ao todo, em diferentes dias) no gênero “eat art” com obras feitas de legumes e/ou verduras e/ou frutas para serem apreciadas, sentidas, tocadas, cheiradas, saboreadas e finalmente devoradas por seus criadores e pelos participantes convidados a essa experiência artístico-degustativa.




"Provar com o conjunto de nosso corpo é viver plena e totalmente. Fazer funcionar a consciência, a cultura e a inteligência sobre um momento gastronômico é contribuir para fazer da nossa vida uma obra de arte e mesclar ética e estética, arte e existência. Alegrar-nos no jogo emocional, sensual e perceptivo (...)” (Michel Onfray: “A Estética do Efêmero” in A Razão Gulosa)

O tema veio como referência às idéias antropofágicas do movimento modernista brasileiro que estávamos trabalhando. Depois de conhecerem essa degustação simbólica da arte moderna no Brasil, as turmas envolvidas ampliaram seus conhecimentos ao pesquisarem na Internet sobre a “eat art” (arte para se comer realmente), entrando assim em contato com uma modalidade de arte raramente trabalhada nas escolas: a dita “arte efêmera” (praticamente todo material visual para ilustrar as aulas foi fornecido por essas pesquisas dos alunos).


natureza-morta

Da pesquisa sobre as conceituações de “arte perene” e “arte efêmera”, os alunos foram então convidados a pensar: O que é uma arte efêmera? O que é uma arte perene? Até que ponto a distinção é válida? E ainda puderam aplicar e divulgar, através do material de suas obras (frutas, legumes e verduras) a proposta do Programa “5 ao dia”, criando e apresentando uma arte divertida que alimenta e satisfaz plenamente o corpo.


Obra de legumes e verduras

“Todas as operações de cozinha significam e celebram as modificações trazidas à matéria: desenformar, corar, assar, fritar, escaldar, grelhar, ferver, abafar, flambar, cozinhar é agir especificamente no tempo; talhar, cortar, amaciar, cinzelar, picar, amarrar, enfarinhar é agir no terreno da forma; soltar, disfarçar, distender, moer, furar, encrespar, ligar, conservar é intervir nas texturas; refogar, aferventar, refrescar, condimentar, temperar é querer produzir efeitos sobre a cor, sobre a luz. Em todos os casos de figura, a ação conjugada sobre o tempo, a forma, as texturas, as cores vem da prática estética ou artística.”
(Michel Onfray: “A Estética do Efêmero” in A Razão Gulosa)




II. O início. De onde a ideia?

Era uma manhã de sexta-feira, na 8ª série estávamos trabalhando a “op-art” e a “arte cinética”, pois iríamos a uma exposição de Mary Vieira (CCBB-RJ) na quarta-feira seguinte. A aula já havia terminado. Recolhia meu material para seguir para a próxima turma, quando de repente me veio a idéia de perguntar: “Quem gosta de cozinhar?” Foi um tal de “eu”, “eu”, “eu”, “eu”. “Por quê?” - perguntou um aluno – “Vamos ter festa?” “Talvez...” Respondi. “Pensei em fazermos uma obra de arte para comer depois, que tal?” “Comer, de verdade?” – perguntaram - “Mas quem vai comer?” “Vocês, ou quem vocês convidarem. Mas isso fica pra depois da visita a Mary Vieira”.

Na visita, os alunos conheceram uma arte que se mexia e na qual se podia mexer. E existe algo de mais “cinético” do que uma arte para comer? É uma arte que se move, se transforma, se modifica... No manuseio do preparo, no manuseio da “partilha”, no manuseio de levar à boca. A obra de arte se modifica. Vai ficando pequena no prato, virando farelo, resíduos na mesa, manchas na mão... Vai ficando grande no estômago. Vai se transformando na saliva, no ventre, vai virando sangue, corpo, alma, coração...


Frutas, legumes e verduras


A turma em que entrei em seguida era uma 7ª série. Vínhamos trabalhando o movimento Antropofágico, revendo o “Abaporu” de Tarsila do Amaral, que inspirou Oswald de Andrade. Então pensei logo de cara em fazer a mesma pergunta: “Quem gosta de cozinhar?” Tal como na turma anterior, a adesão foi total, mas teve quem falasse: “Eu gosto mesmo é de comer!”. Legal, pensei. Eles estavam vendo uma arte em que os artistas “comiam” a arte (simbolicamente), tal como os índios canibais para obter seus poderes. Agora eles iam conhecer uma arte para ser comida de verdade (e igualmente também obter seus poderes, as propriedades nutricionais dos ingredientes). Então comecei a lhes falar sobre a “Eat art” e os alunos concordaram, bastante empolgados, em fazer obras de arte que pudessem ser comidas após a exposição. E que título poderia ser mais legal do que um ligado à antropofagia? “Como era gostosa a minha obra – arte devorada” (uma alusão ao filme, “Como era gostoso o meu francês”, que comentei com os alunos).


Resumindo, a escolha pelo projeto se deu por uma série de coincidências. A SME (Secretaria Municipal de Educação) enviou uma proposta, pela qual me interessei bastante e teve boa acolhida dos alunos, de trabalharmos o Programa “5 ao dia” (incentivo ao consumo de frutas, legumes e verduras) durante a Semana de alimentação Escolar 2005. No Planejamento Pedagógico da Escola estava planejado para o mesmo período o tema “Meio Ambiente: Conhecer e preservar para viver melhor” (e a imprensa vem divulgando que várias frutas e legumes estão entrando em extinção, muitas espécies já estão inclusive extintas – e os alunos ficaram muito curiosos com tais notícias). Havia acabado de ler (pena ter jogado fora a reportagem), sobre uma tal “arte na geladeira”, a propósito de uma recente exposição de arte para comer.


poesia visual

Ano passado comprei um livro, que só então consegui ler, A Razão Gulosa, de M. Onfray (era um presente para uma de minhas irmãs nutricionista), onde um dos capítulos, “A Estética do efêmero”, fala sobre os banquetes futuristas, a Eat-art e outras artes efêmeras cuja matéria é pra ser degustada, devorada ao final. Numa visita este ano à exposição do MAM-RJ (Arte Contemporânea Hoje-2005), os alunos (das 6ª e 7ª séries) acharam legal uma obra feita de pacotes de biscoitos “Club Social” (embora sem biscoitos dentro, creio eu) construindo a bandeira do Brasil (e na sala de atividades educativas do MAM eles foram indagados sobre qual alimento lembrava sua escola). Em algumas turmas, como disse acima, vinha trabalhando o modernismo no Brasil e o movimento antropofágico (aquele de devorar a arte estrangeira – i.e., se apropriar dela - e vomitar uma genuinamente brasileira); e a 8ª série estava conhecendo um gênero de arte em que se pode mexer, modificar e cuja “eternidade” será sempre móvel. A soma de tudo isso fez eu pensar o projeto e a aceitabilidade fez o projeto acontecer.



Composição com chuchu, cenoura, beterraba, alface...



III. Objetivos didáticos e conceitos trabalhados:

* Experimentar uma relação diferente no processo de criação, apresentação e apreciação da arte, ampliando as experiências estéticas.
* Criar obras de arte em que se possa aplicar e divulgar as propostas do Programa “5 ao dia” - de incentivo ao consumo de frutas, legumes e verduras ao menos cinco vezes ao dia -, valorizando e estimulando, assim, uma alimentação saborosa, colorida e saudável que a prática do consumo desses alimentos possibilita.
* Conhecer e refletir a propósito dos conceitos que definem as ditas “arte efêmera” e “arte perene”.
* Ampliar a bagagem cultural, informacional e conceitual ao entrar em contato com algumas das ditas “artes efêmeras”, em especial, a “Eat art”.
* Na criação das obras, trabalhar:
- os conceitos de bidimensionalidade e tridimensionalidade;
- a relação: reprodução X criação X apropriação (em artes);
- a distribuição espacial e o uso da forma;
- a aplicação prática das cores.


Obras com frutas, legumes e verduras



* Há, ainda, um outro objetivo, que me passou inicialmente despercebido até que os próprios alunos (em unanimidade!) em seus Relatórios (após a exposição) ressaltassem (diria mesmo, exaltassem): o trabalho em equipe, a cooperação, a união de esforços para um objetivo comum, a solidariedade, a partilha da experiência do fazer e do apreciar, a convivência em comunidade, enfim, a alegria de compartilhar experiências (alguns alunos chegaram a relatar acontecimentos paralelos à fase inicial de confecção da obra, como, por exemplo, uma pausa na preparação do trabalho para soltar pipa com os colegas do grupo ou a partilha do que sobrou com o vizinho que “emprestou” a laje para soltarem pipa).
* Enfim, criar uma obra de arte divertida e plenamente satisfatória ao corpo (sensível, inteligível, emocional, orgânico).


IV. O Percurso:

IV.1. O “antes”

A proposta destas exposições, como já disse, aconteceu como uma extensão do Programa “5 ao dia” . Certo, o Programa “5 ao dia” não é idéia de artistas plásticos, mas de pesquisadores na área de saúde e nutrição. Interessa a todos nós na medida em que queremos estar bem e saudáveis. Mas não foi difícil passar da nutrição às artes. Afinal, não sabemos que um dos motivos mais atraentes para os artistas parece sempre ter sido os alimentos? As naturezas-mortas que o digam! Pancetti, Cézanne... Quantos não usaram frutas e legumes em suas criações? A própria Tarsila usou várias frutas em suas obras. E Giuseppe Archimboldo, este artista barroco e suas criações de cabeças humanas utilizando frutas, legumes, flores (entre outros elementos inusitados)?


Assim, antes de chegarmos à “efêmera” arte comestível (proposta da exposição), começamos pela arte (dita) “perene”. Propus aos alunos montarmos um mural com o tema “Naturezas-mortas que dão vida”. Não qualquer tipo de natureza-morta, mas uma com o uso de frutas e/ou legumes e/ou verduras. O material foi o convencional: papel ofício e tinta guache. Teve mais trabalho de pintura do que espaço para expor, mas ficou muito legal. Com isso pudemos ver, por exemplo, o que significa tradicionalmente “natureza-morta” e outros gêneros de composição plástica (como, por exemplo, o “nu”, a “paisagem”, o “retrato”, a “marinha” etc.). A proposta era para ser trabalhada, em especial, com as turmas que ainda não conheciam esse conceito (as 5ª séries), mas acabou se estendendo para todas as outras turmas, onde aproveitei para fazer uma breve revisão. Assim, todas as turmas de 5ª a 8ª séries participaram desta primeira atividade, que se deu no plano bidimensional. Até que lancei a questão “Quem gosta de cozinhar?” e o trabalho saiu da bidimensionalidade para tridimensionalidade, da parede e do campo restrito da visão para o espaço experimental, para o tato, o olfato, o paladar, para a experiência viva... Para o espaço da vida.



IV.2. Da preparação ao acontecimento

Como eu disse, um dia lancei a questão: “Quem gosta de cozinhar?”. A adesão foi total (alguns meninos se intimidaram de início – coisa rápida). E mesmo quem não gostava de cozinhar, gostava ao menos de comer. Já havíamos, há algumas semanas, começado a trabalhar o Programa “5 ao dia”, e a “ponte”, como também vimos, para a “efêmera” arte comestível foi a “perene” natureza-morta (5ª a 8ª séries), a “perene” arte cinética (8ª série) e a “perene” arte de Tarsila do Amaral, com sua obra “Abaporu”, inspiradora do movimento Antropofágico, aquele de comer a arte estrangeira – i.e., se “apropriar” dela – e vomitar uma genuinamente brasileira (7ª série; estendida depois para as outras séries).


Lançada a idéia, propus aos alunos que formassem grupos (para facilitar a divisão das tarefas e as despesas com o material). Para cada grupo entreguei duas folhas com os passos para a construção do projeto e sugestões de pesquisa na Internet (já que quase não há publicações sobre o assunto) para enriquecer o trabalho, entender a proposta e auxiliar nas reflexões. Alguns grupos conseguiram logo o material, o que ajudou muito na compreensão da proposta; pois praticamente todo material didático usado para ilustrar as aulas foi fornecido por essas pesquisas dos alunos. E da pesquisa sobre a “eat art”, seus principais artistas e sobre as conceituações de “arte efêmera” e “arte perene”, os alunos foram convidados a pensar: O que é uma arte efêmera? O que é uma arte perene? Até que ponto há de fato essa divisão?


natureza-morta


O corpo humano

De início, pensei em trabalhar apenas com as turmas de 7ª e 8ª séries por causa dos conceitos que considerei mais apropriados ao nível de compreensão dessas séries. Mas o interesse foi tanto, que meus alunos das outras séries quiseram também participar. Então estendi a proposta para minhas duas 6ª séries (as turmas de 5ª participaram apenas como convidadas à comilança e em outras atividades paralelas ligadas ao Programa “5 ao dia”).

Como a proposta era montar exposições no gênero “eat art”, cada grupo tinha que escolher um nome ligado à arte e/ou à comida. Cada grupo deveria elaborar um Projeto inicial, onde deveria constar: o nome do grupo e seus componentes; o título da obra; um croqui esboçando como se pretendia que ela fosse, pois, por exemplo, podia acontecer de, na elaboração da obra, ser necessária alguma modificação (o que de fato ocorreu com alguns grupos); qual material necessário; qual a idéia proposta; qual a reação que se espera do público; e o que mais o grupo achasse importante acrescentar para o entendimento de sua proposta. Cada grupo deveria ainda apresentar um cartaz com uma “poesia-visual” (um jogo de palavras, cores, imagens sobre arte e/ou comida) anunciando a exposição. Forneci ainda alguns dados para a realização de um Relatório final (para depois da exposição), onde deveriam constar: as dificuldades em realizar a obra (os prazeres e desprazeres em sua confecção); como foi a reação do público (foi como a esperada?); e, após a “devoração” da obra, comentários sobre a experiência em comê-la; podia-se ainda (opcional) registrar outras experiências ligadas à construção ou degustação da obra, entrevistas, opiniões de outras pessoas não participantes do grupo, mas que apreciaram ou comeram da obra etc.


Assim, em sala de aula, os alunos pensaram os primeiros passos, rabiscaram as primeiras idéias e decidiram os nomes dos grupos e de suas obras. Surgiu muita coisa interessante: “A arte de comer arte” (8ª série); “Arte não engorda” (6ª série); “Sentindo o sabor da arte” (7ª série); “Os mestres-cucas da arte” (8ª série); “Olhou? Gostou? Comeu? Quer mais?” (6ªsérie); “Comendo com a arte” (7ª série); “Jogando com a arte” (6ª série); “Arte-fruti” (8ª série); “Salada de Artes” (7ª série); “O gostinho da arte” (7ª série); “Fazendo a comilança” (6ª série); “Comer é bom” (7ª série); entre muitos outros nomes. E como se tratava de uma exposição de arte comestível ligada ao desenvolvimento do Programa “5 ao dia” propus aos alunos que pesquisassem (em casa) receitas em que fossem usadas frutas, legumes, verduras. Não precisava ser radicalmente de acordo com o Programa (que aconselha a comer os alimentos preferencialmente crus). Mas se quisessem uma torta, tinha que ser de fruta ou de legumes ou de alguma verdura; se quisessem um bolo, tinha que ser de cenoura, laranja, ou outra fruta, e o confeito (liberei pro chocolate e algumas coberturas irresistíveis) também tinha que levar ao menos alguma fruta e/ou legumes e/ou verduras. Poderiam completar a “refeição” com sucos de frutas (nem pensar em refrigerante ou sucos artificiais!). Podiam montar esculturas e outras construções espaciais com frutas, legumes, verduras; “pinturas” com verduras picadas, legumes e frutas para o acabamento, e por aí vai. Foram necessárias, para essa fase preparatória, umas três semanas. Marcamos então os dias das apresentações (7ª série, 10/06/2005; 8ª série, 17/06/2005; seguidas das duas 6ª séries, 29/06/2005 e 6/07/2005), que ocorreram no auditório da escola.


Palavras do convite:

Sinta, toque, olhe, cheire, deguste, saboreie...

Aprecie sem moderação!

Devore com paixão!



O convite para as exposições



Um campo de futebol de frutas?


Nos dias dos eventos, os alunos levaram o material necessário para a criação de suas obras, que foram montadas (total ou parcialmente) no local da exposição. Alguns alunos, cuja obra não precisava de nenhum preparo anterior, compraram o material diretamente no “Varejão volante” que estaciona diante da escola. Outros, pediram auxílio à comunidade externa (em especial seus familiares) que ajudou dando uma mãozinha na cozinha ou cedendo o espaço para o pré-preparo das obras. Pois os alunos podiam montar uma parte da obra em casa (sobretudo se esta precisasse de cozimento prévio ou de ser assada com antecedência), mas outra deveria obrigatoriamente ser feita no dia e no espaço da exposição, junto aos outros grupos. Por exemplo, se o “suporte” fosse um bolo, este poderia ser “encomendado” (numa padaria, num supermercado, num boleiro...) ou feito com a ajuda da mãe, da avó ou de uma tia, desde que o confeito fosse “desenhado” e construído pelos componentes do grupo, dentro da escola, no dia e espaço da apresentação. Muitos alunos se aventuraram eles mesmos a cozinhar ou a assar.


natureza-morta

Cada aluno ficou de convidar apenas uma pessoa para participar da “comilança” (a visita estava liberada para toda comunidade escolar, mas tivemos de restringir o grupo dos “comedores de obra” já que estas eram limitadas e em pequeno número e a comunidade escolar imensa!). Foi um sucesso retumbante! As obras foram poucas pra tanta boca (os alunos não conseguiram convidar apenas um colega, sem contar que na hora da partilha foi impossível impedir os “penetras” ávidos por um tasquinho desta irresistível arte).


Experiências de sabores: torta de frutas
confeitada com chocolate, beterraba e cenoura


Havia proposto montarmos um banquete coletivo aproveitando a enorme mesa que há no auditório para as comemorações festivas, mas os alunos (de todas as turmas) preferiram montar mesas separadas para cada grupo, assim eles podiam atender melhor “seus convidados”. Nos dias das apresentações, os alunos levaram CDs para um fundo musical. Quando a comilança terminou, eles limparam o auditório ao ritmo de muito som, muita farra e muita dança.


natureza-morta

Depois das exposições, montamos um outro mural com o material obtido pelos grupos na pesquisa pela Internet sobre a “eat art” e outras tendências de “arte efêmera” em sua relação com a “arte perene”. Em sala de aula, os grupos prepararam seus Relatórios. Como alunos encontraram dificuldades em seguir o esquema do Relatório final, preparei um outro. Pedi aos grupos que realizassem primeiro um relato coletivo (através de perguntas e respostas a serem respondidas pelo consenso do grupo), depois outro individual relatando, em forma de redação, a experiência sob um ponto de vista particular do acontecimento. Pelos relatos, a experiência foi mais do que válida e muitos gostariam de repeti-la.

natureza-morta


V. Ainda algumas palavras sobre o percurso:

Tudo parece simples. Mas tive receios. Será que a proposta funcionaria? Será que os alunos teriam como participar (já que implicava em custo de material para o preparo das obras)? Será que apesar do grande interesse, eles viriam no dia combinado ou “furariam”? Conseguiríamos montar as exposições ou elas ficariam só na vontade? O espaço seria liberado pela escola? E o tempo, será que os colegas professores cederiam?


natureza-morta

A grade horária de artes plásticas é pequena. Meu encontro com as turmas acontece apenas uma vez na semana. Tive que interromper e usar as aulas de muitos colegas (que, graças aos céus, tiveram a gentileza de me cederem). Os recursos da escola são poucos (e põe pouco nisso!). Mas a boa vontade é grande. Usar o espaço da apresentação (o auditório da escola), por exemplo, significava a “perda” para muitas colegas do 1º segmento (1ª-4ª séries) de suas atividades já pré-agendadas (e as professoras cederam o espaço numa boa). Os colegas do 2º segmento (5ª-8ª séries) também foram legais, muitos trocaram o dia da avaliação final do bimestre só para facilitar o preparo das exposições e a visitação dos alunos. A coordenação e a direção deram igualmente a maior força, emprestando toalhas de mesa, talheres, guardanapos, entre outros materiais para os alunos que esqueceram de trazer.


Uma imagem "pop" com legumes etc.


As colegas da merenda também foram muito legais ao deixar os alunos ocuparem seu espaço para lavarem as verduras e frutas ou guardarem suas obras até o momento do início das atividades. E os colegas da limpeza (depois de uma “boquinha” na exposição) disseram que este era um espaço em que eles teriam o maior prazer de limpar (se bem que os alunos tentaram deixar tudo limpo após a comilança). As professoras do 1º segmento, além de liberarem sua agenda no auditório, ainda ajudaram no que puderam, emprestando TNT aos alunos que solicitaram, palitos para a confecção de algumas obras, e até dando uma mãozinha na hora de tirar as fotos.


poesia visual

Tive alguns receios. Mas depois da primeira exposição vi que tudo correria bem. A aceitabilidade foi surpreendente. Nenhum grupo “furou”. Os trabalhos foram muito legais e todos consideraram “verdadeiras obras de arte”. Os alunos de algumas séries podem até não ter compreendido toda a relação conceitual trabalhada, mas entenderam o essencial: a proposta em questão: o que “é” uma arte efêmera, o que é a “eat art”, e, o principal: que o importante destas exposições é antes a experiência do que a obra em si. A obra acaba, mas a experiência permanece (na memória, nos corações...).


VI.1. Avaliação (I)

Eu queria que os alunos tivessem uma experiência diferente com a arte. O trabalho dentro da escola acaba sempre ficando muito formal. Arte na escola é quase sempre com os mesmos suportes (de um modo geral, papel ofício, cartolina, folhas de caderno, às vezes, uma sucata, um TNT...), os mesmos materiais (geralmente lápis de cor, canetinha hidrocor, lápis cera, tinta guache...); e com tantas turmas lotadas, tão pouco tempo de aula, além da ausência de um espaço apropriado, muito raramente ousamos trabalhar algo que desvie do formal. E no entanto, esta ausência de um espaço apropriado é o que mais deveria nos incentivar a pensar algumas propostas com “performances” ou “intervenções”, entre outras experiências em artes cujo suporte é o próprio corpo ou o entorno, senão meramente a própria experiência (a experiência é a obra). Certo que nada disso é novidade no mundo das Artes, mas é uma experiência inédita para os alunos que têm então a oportunidade de aumentar seus conhecimentos em linguagens artísticas, seus conceitos em relação ao mundo contemporâneo e ainda ampliar suas experiências estéticas.


natureza-morta

Várias contribuições este trabalho nos proporcionou (a mim, aos alunos e, espero, à escola): desde as atitudes em relação a uma alimentação saudável até a oportunidade de trabalhar um tema em artes que até então não tinha sido abordado com as turmas. Os alunos nunca tinham ouvido falar da “eat art”. E esta foi a oportunidade de incentivá-los a uma pesquisa on-line (já que o material publicado é pouco ou pouco acessível). Até então, eu nunca havia trabalhado com nenhuma turma as conceituações “arte efêmera” e “arte perene” e essa foi igualmente a oportunidade para apresentá-los a tais conceitos (e muitos apontaram em seus relatórios a contribuição desses novos conhecimentos).


natureza-morta

Esta foi também a oportunidade de pensar questões éticas relativas à convivência em comunidade: refletindo sobre a participação junto ao grupo (a união, a colaboração, a cooperação, a divisão das tarefas, a alegria de compartilhar etc.) e sobre o comportamento das pessoas no evento (como a questão do respeito, das atitudes sociais – alguns participantes, por exemplo, ultrapassando as normas da boa convivência e do respeito, meteram a mão nos trabalhos, pegando sem consentimento dos grupos -; a questão da generosidade com o próximo – os membros de muitos grupos, por exemplo - segundo os relatórios -, serviram seus convidados – e os “penetras” - sem se importarem de não provar da própria obra, reconhecendo que o mais legal foi ver o sucesso que o trabalho fez pelo tamanho do público apreciador e “devorador” da arte que eles fizeram -; a questão da reciprocidade: Até que ponto se deve “retribuir”? Grupos generosos devem ser retribuídos com generosidade. Mas será correto “pagar na mesma moeda”, “dar o troco” para os que “invadiram” e não respeitaram seus colegas? Ou para os que foram “egoístas” na partilha? O que se ganha “retribuindo” o erro? -; a questão da honestidade – alguns alunos, p.ex., “venderam” convites por biscoitos “Trakinas”, e embora tenham cobrado uma “moeda” comestível, como a proposta da exposição, a entrada era livre e seus colegas foram ludibriados com essa traquinagem -. Muitos alunos, em seus relatórios, aludiram a essas e outras atitudes.).


poesia visual


Alunos preparando a obra: castelo de abacaxi,
coberto de chocolate e frutas (morangos, peras, maçãs, uvas)


Arte abstrata com frutas, legumes e verduras


Material para as obras? Alunos no "Varejão Volante"


Professora visitante se deliciando com a obra



VI.2. Avaliação (II)

Quanto a meu trabalho, a experiência de montar esta exposição com os alunos (e vê-los tão receptivos) me trouxe grande satisfação. Pois muitas vezes esquecemos que é possível fazer um trabalho legal em artes mesmo com pouco material (plástico) e a ausência de uma sala ambiente apropriada para nossas atividades. Os alunos sempre estudaram sobre a arte que consta dos livros de História e que, em sua maioria, faz parte da dita “arte perene”. E nós, mesmo o mundo tendo mudado, as mentalidades terem mudado, os conceitos de arte e obra terem mudado, continuamos reproduzindo dentro da escola conceitos modernos ou pré-modernos (nem sempre, é verdade, mas na maioria das vezes). E esquecemos que não são apenas estas atividades artísticas (intervenções, propostas, performances...) que são efêmeras. Mas, como disse sabiamente um aluno da 6ª série (ao ser indagado sobre um exemplo): efêmero é o nosso mural! Durante o ano, trocamos os murais das salas várias vezes. De ano a ano, novos alunos, novas turmas, novos professores, novos (e múltiplos) murais. O aluno acertou no exemplo, pois o que é “mais” efêmero, a arte que eles fizeram para comer ou o mural com suas pinturas de naturezas-mortas que logo haveria de ser trocado? Tudo é efêmero, como nossos murais, como nossa breve passagem sobre a terra... Tudo pode ser eterno como a lembrança desta exposição para quem a vivenciou.


Arte efêmera X arte perene:
mural com o resultado da pesquisa na internet sobre eat-arte, arte efêmera...



Mural com os desenhos sobre o corpo humano



Mural: natureza-morta com frutas, legumes, verduras


VII. Fundamentação teórica:

(1) ONFRAY, Michel – “A Estética do Efêmero” (pp.163-190) in A Razão gulosa – Filosofia do gosto – tradução: Ana Maria Scherer (La raison gourmande, Philosophie du goût, Éditons Grasset & Fasquelle, 1995), RJ, Rocco, 1999.

(2) ----------------- - O ventre dos filósofos – Crítica da razão dietética – tradução: Ana Maria Scherer (Le ventre de philosophes, Éditions Grasser & Fasquelle, 1989), Ed. Rocco, RJ, 1990.

(3) BERLINCK, Deborah – “Eat Art – A arte que também é comida” – jornal O Globo (26/12/2004) consultado em: http://www.pitoresco.com.br/espelho/2005_01/eat_art/eat_art.htm

(4) “Eat Art: Joseph Beys, Dieter Roth, Sonja Alhäuser: 5/10/2001 a 15/12/2001 – Busch-Reisinger Museum” – consultado em: http://home.earthlink.net/~dadaloplop/eat_art.html

(5) Material produzido pela iniciativa “5 ao dia” – Rio(*) enviado às escolas:
Semana de Alimentação Escolar – 2005 – Frutas, Legumes e Verduras pelo menos cinco porções ao dia, maio, 2005.
Promoção do Consumo de Frutas, Legumes e Verduras: O Programa “5 ao dia” – maio, 2005. Cartilha 1: Promoção do Consumo de Frutas, Legumes e Verduras: O Programa “5 ao dia” – maio, 2005. Cartilha 2: Semana de Alimentação Escolar – 2005 – Frutas, Legumes e Verduras pelo menos cinco porções ao dia, maio, 2005
(*)Obs.: O material, pelo que me parece, foi produzido pelo Instituo Annes Dias (INAD). Embora nos dois livretos acima citados não conste tal referência, a revista Nós da Escola nº.28 (uma publicação da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e MULTIRIO), na p.27, cita o INAD como autor do projeto. Ainda que, pelas informações do próprio material, o Programa “5 ao dia”-Rio envolve uma multiplicidade de outros institutos e órgãos.

(6) Revista “SAÚDE! é vital” – março/2005, Ed. Abril - ; artigo na seção de Nutrição: “9 ao dia – Essa agora é a quantidade de porções de vegetais recomendadas para prevenir doenças como câncer e obesidade” (pp.22-27).

(7) Esta indicação acrescentei em janeiro/2012: link interessante mostrando criações com frutas, legumes e verduras: "25 loucas criações com frutas, legumes e verduras": http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=15783

(8) Indicação acrescentada em janeiro/2012: Imagens da obra de Giuseppe Arcimboldo, o artista do século XVI que ficou conhecido por suas pinturas "surrealistas" de rostos formados por flores, frutas, legumes etc. http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=168

(9) Indicação acrescentada em janeiro/2012: Sobre Mary Vieira, artista contemporânea brasileira cuja obra era uma "pesquisa sobre movimento e a dinâmica das formas": Enciclopédia Itaú Cultural: http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_IC/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&cd_verbete=2759&cd_idioma=28555 - ou: "Mary Vieira: O Tempo do Movimento": Rio Arte Cultura: http://www.rioartecultura.com/maryvieira.htm

(10) Indicação acrescentada em janeiro/2012: Resumo do filme brasileiro "Como era gostoso o meu francês", de Nelsom Pereira dos Santos, que conta as aventuras de um francês capturado por índios canibais brasileiros - no site: Meu Cinema Brasileiro: http://www.meucinemabrasileiro.com/filmes/como-era-gostoso-meu-frances/como-era-gostoso-meu-frances.asp

(11) Indicação acrescentada em janeiro/2012: Sobre "Antropofagia": Enciclopédia Itaú Cultural: http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=74